(ENEM - 2016)
A partida de trem
Marcava seis horas da manhã. Angela Pralini pagou o táxi e pegou sua pequena valise. Dona Maria Rita de Alvarenga Chagas Souza Melo desceu do Opala da filha e encaminharam-se para os trilhos. A velha bem-vestida e com joias. Das rugas que a disfarçavam saía a forma pura de um nariz perdido na idade, e de uma boca que outrora devia ter sido cheia e sensível. Mas que importa? Chega-se a um certo ponto – e o que foi não importa.
Começa uma nova raça. Uma velha não pode comunicar-se. Recebeu o beijo gelado de sua filha que foi embora antes do trem partir. Ajudara-a antes a subir no vagão. Sem que neste houvesse um centro, ela se colocara do lado. Quando a locomotiva se pôs em movimento, surpreendeu-se um pouco: não esperava que o trem seguisse nessa direção e sentara-se de costas para o caminho.
Angela Pralini percebeu-lhe o movimento e perguntou:
– A senhora deseja trocar de lugar comigo?
Dona Maria Rita se espantou com a delicadeza, disse que não, obrigada, para ela dava no mesmo. Mas parecia ter-se perturbado. Passou a mão sobre o camafeu filigranado de ouro, espetado no peito, passou a mão pelo broche. Seca. Ofendida? Perguntou afinal a Angela Pralini:
– É por causa de mim que a senhorita deseja trocar de lugar?
LISPECTOR, C. Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980 (fragmento).
A descoberta de experiências emocionais com base no cotidiano é recorrente na obra de Clarice Lispector. No fragmento, o narrador enfatiza o(a)
comportamento vaidoso de mulheres de condição social privilegiada.
anulação das diferenças sociais no espaço público de uma estação.
incompatibilidade psicológica entre mulheres de gerações diferentes.
constrangimento da aproximação formal de pessoas desconhecidas.
sentimento de solidão alimentado pelo processo de envelhecimento.
Gabarito:
sentimento de solidão alimentado pelo processo de envelhecimento.
A) INCORRETA: uma vez que a vaidade não é enfatizada pelo narrador, pelo contrário, no início do texto, quando se descreve Dona Maria Rita, como uma mulher bem vestida e colocam-se ainda suas características físicas, as comparando com antigamente, é dito "mas que importa?", deixando extremamente claro que a vaidade e a aparência não são os pontos principais do texto.
B) INCORRETA: Na verdade, não podemos perceber a anulação de diferenças sociais na estação, uma vez que justamente é frisado que a senhora era rica, portanto as diferenças sociais são enfatizadas, o contrário de anuladas. Mas, mesmo assim, não foi esse o motivo que levou a moça mais jovem a ceder o lugar, ela fez isso porque percebeu uma inquietação da senhora quando o trem começou a se movimentar.
C) INCORRETA: No texto não podemos perceber a ênfase na incompatibilidade psicológica entre mulheres de idades diferentes, já que Dona Maria Rita também foi uma adulta, que agora é uma idosa, mas ela se sente claramente invalidada, pois o narrador diz que uma velha não pode se comunicar, expressando já um traço de sua sensação de solidão, bem como a menção do beijo gelado, ou seja, sem energia e o arremate final vem com a total recusa da senhora de aceitar que alguém poderia ter empatia com ela, expresso na pergunta final que ela faz à Angela, achando que a jovem queria trocar de lugar por causa dela, o que não era o caso. É um sentimento de solidão bem sutil, mas ao mesmo tempo absolutamente intenso que Clarice Lispector traz aqui.
D) INCORRETA: ao retrucar a mulher que ofereceu o lugar com uma pergunta, Dona Maria não se constrangeu com a aproximação formal de Angela Pralini, mas ficou curiosa com o verdadeiro motivo da mulher ter se aproximado dela.
E) CORRETA: O texto baseia-se em uma experiência emocional que denota o sentimento de solidão vivido pela personagem Dona Maria Rita. Isso pode ser percebido em diversos momentos do fragmento, como no beijo frio de sua filha e na surpresa de alguém se preocupar com a sua comodidade no trem.