(ENEM - 2016)
Você pode não acreditar
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os leiteiros deixavam as garrafinhas de leite do lado de fora das casas, seja ao pé da porta, seja na janela.
A gente ia de uniforme azul e branco para o grupo, de manhãzinha, passava pelas casas e não ocorria que alguém pudesse roubar aquilo.
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os padeiros deixavam o pão na soleira da porta ou na janela que dava para a rua. A gente passava e via aquilo como uma coisa normal.
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que você saía à noite para namorar e voltava andando pelas ruas da cidade, caminhando displicentemente, sentindo cheiro de jasmim e de alecrim, sem olhar para trás, sem temer as sombras.
Você pode não acreditar: houve um tempo em que as pessoas se visitavam airosamente. Chegavam no meio da tarde ou à noite, contavam casos, tomavam café, falavam da saúde, tricotavam sobre a vida alheia e voltavam de bonde às suas casas.
Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que o namorado primeiro ficava andando com a moça numa rua perto da casa dela, depois passava a namorar no portão, depois tinha ingresso na sala da família. Era sinal de que já estava praticamente noivo e seguro.
Houve um tempo em que havia tempo.
Houve um tempo.
SANT’ANNA, A. R. Estado de Minas, 5 maio 2013 (fragmento).
Nessa crônica, a repetição do trecho “Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que...” configura-se como uma estratégia argumentativa que visa
surpreender o leitor com a descrição do que as pessoas faziam durante o seu tempo livre antigamente.
sensibilizar o leitor sobre o modo como as pessoas se relacionavam entre si num tempo mais aprazível.
advertir o leitor mais jovem sobre o mau uso que se faz do tempo nos dias atuais.
incentivar o leitor a organizar melhor o seu tempo sem deixar de ser nostálgico.
convencer o leitor sobre a veracidade de fatos relativos à vida no passado.
Gabarito:
sensibilizar o leitor sobre o modo como as pessoas se relacionavam entre si num tempo mais aprazível.
A) INCORRETA: A expressão repetida ("Você pode não acreditar...") é utilizada em um sentido não literal, ou seja, a intenção do autor não é chocar ou deixar o leitor incrédulo (uma vez que os eventos relatados são super comuns e críveis, e pouco afastados no tempo histórico). Ele usa essa expressão, então, no sentido de convidar a uma reflexão sensível sobre como os tempos atuais inibiram determinados comportamentos, e alteraram a relação das pessoas com seu tempo. Além disso, ele não descreve apenas ações realizadas em tempo ocioso, uma vez que descreve ações de leiteiros e padeiros em seus trabalhos. A alternativa em questão restringe e altera um pouco a intenção comunicativa dessa construção textual reiterada.
B) CORRETA: Com o uso de “Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que...” o autor da crônica procura salientar a estranheza que a conjuntura de seu tempo causaria hoje. A repetição tem o intuito de sensibilizar o leitor quanto a vida no passado, tentando exprimir a ideia de que aqueles tempos eram melhores do que os atuais, no quais os tipo de situações descritas não são comuns.
C) INCORRETA: não é possível identificar nenhum possibilidade de que essa repetição represente uma forma de advertir os mais jovens sobre o uso do seu tempo nos dias atuais.
D) INCORRETA: pois esse não é o assunto principal, de organizar o tempo, mas apontar o que acontecia em outras épocas a respeito de um tema em específico.
E) INCORRETA: pois dizer que a estrutura "você pode não acreditar" é o que, no texto, confere veracidade e poder de convencimento aos fatos do passado.está errado. Em primeiro lugar, porque a frase indica, justamente, uma "permissão", por parte do autor, da descrença do leitor. Em segundo lugar, porque a mesma estrutura revela um repertório de informalidade, subjetividade do discurso: ao se colocar como testemunha "única" no momento da enunciação, o autor não reitera essa frase com efeito de comprovação de fatos universais (algo próximo a argumentação, dissertação, ciência), mas sim da apresentação de uma relação afetiva diante dos fatos, que adquirem caráter de "verdade pessoal".