(ENEM - 2016)
Em casa, Hideo ainda podia seguir fiel ao imperador japonês e às tradições que trouxera no navio que aportara em Santos. [...] Por isso Hideo exigia que, aos domingos, todos estivessem juntos durante o almoço. Ele se sentava à cabeceira da mesa; à direita ficava Hanashiro, que era o primeiro filho, e Hitoshi, o segundo, e à esquerda, Haruo, depois Hiroshi, que era o mais novo. [...] A esposa, que também era mãe, e as filhas, que também eram irmãs, aguardavam de pé ao redor da mesa [...]. Haruo reclamava, não se cansava de reclamar: que se sentassem também as mulheres à mesa, que era um absurdo aquele costume. Quando se casasse, se sentariam à mesa a esposa e o marido, um em frente ao outro, porque não era o homem melhor que a mulher para ser o primeiro [...]. Elas seguiam de pé, a mãe um pouco cansada dos protestos do filho, pois o momento do almoço era sagrado, não era hora de levantar bandeiras inúteis [...].
NAKASATO, O. Nihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011 (fragmento).
Referindo-se a práticas culturais de origem nipônica, o narrador registra as reações que elas provocam na família e mostra um contexto em que
a obediência ao imperador leva ao prestígio pessoal.
as novas gerações abandonam seus antigos hábitos.
a refeição é o que determina a agregação familiar.
os conflitos de gênero tendem a ser neutralizados.
o lugar à mesa metaforiza uma estrutura de poder.
Gabarito:
o lugar à mesa metaforiza uma estrutura de poder.
A) INCORRETA: pois o debate que está sendo levantado no texto não é o prestígio pessoal, mas a percepção familiar diante da situação em que as mulheres não podem se assentar à mesa.
B) INCORRETA: Se a palavra fosse "questiona" no lugar de abandona, a alternativa estaria correta, mas o que ocorre - apenas hipotetica e discursivamente - não é um abandono presente (e geral, pois se mostra gesto isolado de Haruo) dos hábitos patriarcalistas japoneses.
C) INCORRETA: não é a refeição que está determinando coisa alguma nesse texto, mas é a cultura da qual veio a família de Hideo que os fazem repetir os mesmos costumes praticados no Japão, mas em Santos.
D) INCORRETA: Certamente podemos identificar o protesto de um dos filhos, assim como a postura dura da mãe sobre essas ideias. Quando é dito que "não era hora de levantar bandeiras inúteis", não podemos dizer que a mãe está neutralizando os conflitos de gênero, mas ela está neutralizando o protesto a esses conflitos. Podemos perceber isso, porque a situação permanece a mesma: os homens sentados à mesa e as mulheres esperando em pé ao redor. Isso significa que os conflitos de gênero não foram neutralizados, mas permanecem.
E) CORRETA: Os lugares a mesa representam uma estrutura/hierarquia da sociedade japonesa. O pai, como figura mais importante, seguida dos filhos, do mais velho para o mais novo. As mulheres da família, mãe e filhas, ficavam em pé ao redor da mesa. Essa figuração metaforiza a estrutura de poder, que é protagonizado por homens.