(ENEM - 2016 - 2ª aplicação)
[...] O SERVIDOR — Diziam ser filho do rei...
ÉDIPO — Foi ela quem te entregou a criança?
O SERVIDOR — Foi ela, Senhor.
ÉDIPO — Com que intenção?
O SERVIDOR — Para que eu a matasse.
ÉDIPO — Uma mãe! Mulher desgraçada!
O SERVIDOR — Ela tinha medo de um oráculo dos deuses.
ÉDIPO — O que ele anunciava?
O SERVIDOR — Que essa criança um dia mataria seu pai.
ÉDIPO — Mas por que tu a entregaste a este homem?
O SERVIDOR — Tive piedade dela, mestre. Acreditei que ele a levaria ao país de onde vinha. Ele te salvou a vida, mas para os piores males! Se és realmente aquele de quem ele fala, saibas que nasceste marcado pela infelicidade.
ÉDIPO — Oh! Ai de mim! Então no final tudo seria verdade! Ah! Luz do dia, que eu te veja aqui pela última vez, já que hoje me revelo o filho de quem não devia nascer, o esposo de quem não devia ser, o assassino de quem não deveria matar!
SÓFOCLES. Édipo Rei. Porto Alegre: L&PM, 2011.
O trecho da obra de Sófocles, que expressa o núcleo da tragédia grega, revela o(a)
condenação eterna dos homens pela prática injustificada do incesto.
legalismo estatal ao punir com a prisão perpétua o crime de parricídio.
busca pela explicação racional sobre os fatos até então desconhecidos.
caráter antropomórfico dos deuses na medida em que imitavam os homens.
impossibilidade de o homem fugir do destino predeterminado pelos deuses.
Gabarito:
impossibilidade de o homem fugir do destino predeterminado pelos deuses.
e) Correta. impossibilidade de o homem fugir do destino predeterminado pelos deuses.
Ao longo da história de Édipo, encontra-se um homem em fuga de seu destino e a tentativa de seus pais desviá-lo de tal caminho — o anúncio de que ele viria a cometer parricídio e incesto; tentativas que foram frustradas, pois, sem saber, Édipo matara o seu pai e casara-se com a sua mãe, tendo filhos com ela. A tragédia demonstra a impossibilidade de o homem fugir do destino predeterminado pelos deuses.
a) Incorreta. condenação eterna dos homens pela prática injustificada do incesto.
Embora Édipo condene-se pela prática do incesto, que fizera por inconsciência, o trecho não expressa essa condenação por parte dos deuses, tampouco explora isso como o fio condutor da história.
b) Incorreta. legalismo estatal ao punir com a prisão perpétua o crime de parricídio.
Édipo não ficara preso perpetuamente por cometer o crime de parricídio — nem, ao menos, ficara preso; ele isolara-se da sociedade e furou os próprios olhos como uma forma de expurgar o mal que cometera. Portanto, não há um legalismo estatal no trecho, pois o próprio Édipo se punira, sem intervenção alheia.
c) Incorreta. busca pela explicação racional sobre os fatos até então desconhecidos.
Tal explicação é um movimento posterior, empreendido na filosofia, não nas tragédias e poemas gregos.
d) Incorreta. caráter antropomórfico dos deuses na medida em que imitavam os homens.
Embora essa característica fosse, de fato, presente nos mitos gregos, o trecho em questão não explora esse antropomorfismo, antes, a danação de um homem, devido ao destino premeditado pelos deuses.