(ENEM - 2016)
Pirro afirmava que nada é nobre nem vergonhoso, justo ou injusto; e que, da mesma maneira, nada existe do ponto de vista da verdade; que os homens agem apenas segundo a lei e o costume, nada sendo mais isto do que aquilo. Ele levou uma vida de acordo com esta doutrina, nada procurando evitar e não se desviando do que quer que fosse, suportando tudo, carroças, por exemplo, precipícios, cães, nada deixando ao arbítrio dos sentidos.
LAÉRCIO, D. Vidas e sentenças dos filósofos Ilustres. Brasília: Editora UnB, 1988.
O ceticismo, conforme sugerido no texto, caracteriza-se por:
Desprezar quaisquer convenções e obrigações da sociedade.
Atingir o verdadeiro prazer como o princípio e o fim da vida feliz.
Defender a indiferença e a impossibilidade de obter alguma certeza.
Aceitar o determinismo e ocupar-se com a esperança transcendente.
Agir de forma virtuosa e sábia a fim de enaltecer o homem bom e belo.
Gabarito:
Defender a indiferença e a impossibilidade de obter alguma certeza.
c) Correta. Defender a indiferença e a impossibilidade de obter alguma certeza.
O ceticismo pode ser caracterizado como a consciência da impossibilidade humana de encontrar verdades universais. O ceticismo pirrônico, uma doutrina de um filósofo do período helenista que concebe a impossibilidade de alcançar a verdade absoluta e, por isso, prescreve um tipo de suspensão de juízo. As doutrinas filosóficas da antiguidade têm um caráter geralmente terapêutico, isto é, visam a felicidade e a tranquilidade da alma; cada uma, ao seu modo, postulou seus princípios. O ceticismo de Pirro também visava estabelcer a tranquilidade da alma a partir da suspensão de juízo, pois observava que a constante busca pela verdade absoluta e definitiva perturbava as pessoas; essa inquietude as lançava em uma impossibilidade, pois, encontrada uma verdade, percebiam a aparência enganosa desta e, perturbadas, lançavam-se novamente à procura de uma nova verdade. O ceticismo pirrônico não objetivava minar essa busca, antes, suspender o juízo acerca dessas verdades, isto é, no encontro de uma, não julgá-la como absoluta e definitiva. Portanto, a investigação deveria permanecer, porém o indivíduo não deveria julgar que o encontro de uma verdade fosse o encontro definitivo com ela, pois esta podia, novamente, ser questionada e provada como uma ilusão.
a) Incorreta. Desprezar quaisquer convenções e obrigações da sociedade.
O ceticismo não se configura em desprezo, e sim em descrença, indiferença. O desprezo é uma atitude, uma ação perante a condição de todas as coisas enquanto mera aparência, e foi defendida pelos cínicos, não pelos céticos.
b) Incorreta. Atingir o verdadeiro prazer como o princípio e o fim da vida feliz.
O prazer como princípio e fim da vida feliz é um ideal do epicurismo, não do ceticismo pirrônico, que, de fato, buscava também a felicidade, em conformidade com as propostas terapêuticas da antiguidade, porém por meio da suspensão do juízo.
d) Incorreta. Aceitar o determinismo e ocupar-se com a esperança transcendente.
Para os céticos, o homem não pode alcançar nenhuma certeza sobre a verdade, logo, não existe determinismo. Ademais o determinismo é uma posição típica dos estóicos.
e) Incorreta. Agir de forma virtuosa e sábia a fim de enaltecer o homem bom e belo.
Isso não é levado em conta pelo ideal do ceticismo, mas na Antiguidade Clássica, com Platão e Aristóteles.