(ENEM - 2010)
Texto I
Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas.
RIO, J. A rua. In: A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (fragmento).
Texto II
A rua dava-lhe uma força de fisionomia, mais consciência dela. Como se sentia estar no seu reino, na região em que era rainha e imperatriz. O olhar cobiçoso dos homens e o de inveja das mulheres acabavam o sentimento de sua personalidade, exaltavam-no até. Dirigiu-se para a rua do Catete com o seu passo miúdo e sólido. [...] No caminho trocou cumprimento com as raparigas pobres de uma casa de cômodos da vizinhaça. [...] E debaixo dos olhares maravilhados das pobres raparigas, ela continuou o seu caminho, arrepanhando a saia, satisfeita que nem uma duquesa atravessando os seus domínios.
BARRETO, L. Um e outro. In: Clara dos anjos. Rio de Janeiro: Editora Mérito (fragmento).
A experiência urbana é um tema recorrente em crônicas, contos e romances do final do século XIX e início do XX, muitos dos quais elegem a rua para explorar essa experiência. Nos fragmentos I e II, a rua é vista, respectivamente, como lugar que
desperta sensações contraditórias e desejo de reconhecimento.
favorece o cultivo da intimidade e a exposição dos dotes físicos.
possibilita vínculos pessoais duradouros e encontros casuais.
propicia o sentido de comunidade e a exibição pessoal.
promove o anonimato e a segregação social.
Gabarito:
propicia o sentido de comunidade e a exibição pessoal.
[D]
Os dois textos, apesar de escritos em um contexto histórico próximo, apresentam figurações distintas do papel do espaço social na narrativa: a rua.
No primeiro texto, de João do Rio, nota-se que o que "nos une, nivela e agremia o amor da rua". O autor, nesse sentido, apresenta a rua como local de aglomeração e relacionamento, comunhão e equilíbrio - um espaço de encontro e socialização capaz de "irmanar" as pessoas em laços comunitários.
Lima Barreto, por outro lado, apresenta uma perspectiva crítica sobre esse mesmo espaço, realçando a ideia das aparências: a imagem da mulher que "debaixo dos olhares maravilhados das pobres raparigas, [...] continuou o seu caminho, arrepanhando a saia, satisfeita que nem uma duquesa atravessando os seus domínios." apresenta a rua como espaço narrativo de exibição, que se relaciona diretamente à postura social da personagem.