(ENEM - 2010 - 2ª APLICAÇÃO)
Açúcar
O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
[...]
Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.
GULLAR, F. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1980 (fragmento).
A Literatura Brasileira desempenha papel importante ao suscitar reflexão sobre desigualdades sociais. No fragmento, essa reflexão ocorre porque o eu lírico
descreve as propriedades do açúcar.
se revela mero consumidor de açúcar.
destaca o modo de produção do açúcar.
exalta o trabalho dos cortadores de cana.
explicita a exploração dos trabalhadores.
Gabarito:
explicita a exploração dos trabalhadores.
A) INCORRETA: não são descritas as propriedades do açúcar, pois o eu lírico teria que falar da glicose, da composição orgânica, etc. e não só de onde veio o açúcar.
B) INCORRETA: porque o eu lírico se vê sim como um consumidor, não um consumidor que só absorve o produto sem pensar nele, mas sim aquele que vê o produto e reflete sobre ele e sobre todas as fases envolvidas na sua criação.
C) INCORRETA: não é somente o modo de produção do açúcar, mas principalmente os agentes envolvidos na sua produção e as problemáticas sociais (como a condição desses agentes, exemplificada em "usinas escuras, homens de vida amarga") envolvidas nessa produção.
D) INCORRETA: não está sendo exaltado o trabalho dos cortadores de cana, mas sim todo o processo e os agentes envolvidos na produção do açúcar, incluindo o processo de cortar a cana.
E) CORRETA: O eu lírico, em uma manhã serena e ambiente confortável, divaga sobre o elemento que usará para adoçar seu café. Melancolicamente, percebe que o açúcar, branco e doce, contrasta com a realidade “escura” e “amarga” de quem o produziu. A pureza do açúcar contrapõe-se à exploração do trabalhador, sujeito a condições de vida miseráveis (“Onde não há hospital,/Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome/Aos 27 anos/Plantaram e colheram a cana/Que viraria açúcar”).