(Enem 2010)
Soneto
Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!... já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
AZEVEDO, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000.
O núcleo temático do soneto citado é típico da segunda geração romântica, porém configura um lirismo que o projeta para além desse momento específico. O fundamento desse lirismo é
a angústia alimentada pela constatação da irreversibilidade da morte.
a melancolia que frustra a possibilidade de reação diante da perda.
o descontrole das emoções provocado pela autopiedade.
o desejo de morrer como alívio para a desilusão amorosa.
o gosto pela escuridão como solução para o sofrimento.
Gabarito:
a melancolia que frustra a possibilidade de reação diante da perda.
a) Alternativa incorreta. O poema não tem como mote a questão da irreversibilidade da morte, não trata desse tema em si.
b) Alternativa correta. Em trechos como "Volve ao amante os olhos por piedade,/Olhos por quem viveu quem já não vive!" e "O adeus, o teu adeus, minha saudade,/Fazem que insano do viver me prive/E tenha os olhos meus na escuridade", é possível perceber a temática da melancolia diante da perda de alguém, do luto.
c) Alternativa incorreta. Não há descontrole das emoções e nenhum traço de autopiedade.
d) Alternativa incorreta. O eu poético não fala sobre uma desilusão amorosa, mas sim sobre a morte da pessoa amada e o desnorteamento que segue tal fato.
e) Alternativa incorreta. O eu poético não apresenta a escuridão literal como solução, mas sim a morte (escuridão como metáfora).