(UNICAMP - 2020 - 1ª FASE)
O poema abaixo vem impresso na orelha do livro Psia, de Arnaldo Antunes.
Psia é feminino
de psiu;
que serve para chamar a atenção
de alguém, ou para pedir
silêncio.
Eu berro as palavras
no microfone
da mesma maneira com que
as desenho, com cuidado,
na página.
Para transformá-las em coisas,
em vez de substituírem
as coisas.
Calos na língua; de calar.
Alguma coisa entre a piscina e a pia.
Um hiato a menos.
Arnaldo Antunes, Psia. São Paulo: Iluminuras 2012.
Na orelha do livro, Antunes apresenta ao leitor seu processo de criação poética. É correto dizer que o autor se propõe a
revelar a primazia da comunicação oral sobre a escrita das palavras.
discutir a flexão de gênero, que torna a palavra “psia” um substantivo.
defender a conversão das palavras em coisas, mudando seu estatuto.
explorar o poder de representação da interjeição exclamativa “psiu!”.
Gabarito:
defender a conversão das palavras em coisas, mudando seu estatuto.
Comentário geral Kuadro: a alternativa C “defende a conversão das palavras em coisas, mudando seu estatuto.” é considerada como a correta porque Arnaldo Antunes explora o recurso linguístico relacionado com o processo de formação de palavras, alterando-as de maneira morfológica e semântica, como pode ser observado nos seguintes exemplos: “Psia” / “Psiu”; “calos” / “calar”; “piscina” / “pia”. É também marcado pela semelhança dos sons das palavras utilizadas em contextos diferentes do que é convencional entre os falantes da língua portuguesa, ou seja, abrange em diferentes contextos de uso.
Resolução UNICAMP: A alternativa correta é a c, única que faz referência ao “transformar palavras em coisas”, presente no poema. A alternativa a é incorreta, porque diz que a comunicação oral tem prioridade sobre a comunicação escrita e no poema não há primazia, como se confirma com “da mesma maneira que as desenho”. A alternativa b é incorreta, pois afirma que a função do poema é discutir a flexão de gênero pelo fato de apontar “psia” como um substantivo (no poema diz apenas que é feminino de “psiu"). A alternativa d afirma que o poema diz respeito à interjeição “psiu” e não à “psia”, sendo, portanto, incorreta. Nenhuma dessas três alternativas traz a ideia de criação poética.