(UNICAMP - 2019 - 2ª fase)
(...) Recordo-lhe que os revisores são gente sóbria, já viram muito de literatura e vida, O meu livro recordo-lhe eu, é de história, Assim realmente o designariam segundo a classificação tradicional dos géneros, porém, não sendo propósito meu apontar outras contradições, em minha discreta opinião, senhor doutor, tudo quanto não for vida, é literatura, A história também, A história sobretudo, sem querer ofender,
(José Saramago, História do Cerco de Lisboa. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.12.)
(...) O que você quer dizer, por outras palavras, é que a literatura já existia antes de ter nascido, Sim senhor, como o homem, por outras palavras, antes de o ser já o era. Parece-me um ponto de vista bastante original, Não o creia, senhor doutor, o rei Salomão, que há muito tempo viveu, já então afirmava que não havia nada de novo debaixo da rosa do sol.
(Idem, p.13.)
(...) Então o senhor doutor acha que a história e a vida real, Acho, sim, Que a história foi vida, real, quero dizer, Não tenho a menor dúvida, Que seria de nós se não existisse o deleatur, suspirou o revisor.
(Idem, p.14.)
a) Nos excertos acima, revisor e autor discutem uma questão decisiva para a escrita do romance de José Saramago. Identifique essa questão, presente no diálogo entre as duas personagens, e explique sua importância para o conjunto da narrativa.
b) No terceiro excerto, o revisor utiliza a palavra deleatur. O que significa essa expressão e por que ela é tão importante para o revisor?
Gabarito:
Resolução:
a) A questão presente no diálogo entre as duas personagens é referente a discussão sobre o que é Literatura e o que é História. Para o Historiador, responsável pelo livro que será revisado por Raimundo, a história é um conjunto de fatos reais; enquanto para Raimundo, a história é a própria literatura sem detalhes, ou seja, um relato com posicionamento e menção dos fatos principais ocorridos. Essa percepção sobre o que é História e Literatura tem muita importância na obra, visto que Saramago constrói uma metaficção na qual a real História do Cerco de Lisboa é recontada por um revisor de textos, que ao alterá-la passa à posição de escritor e recria a história real ocorrida em 1147 (quando os Mouros foram derrotados em Lisboa), inserindo novas personagens (fictícias) e retomando a discussão inicial sobre o que é a Literatura e o que é História.
b) A expressão “deleatur” refere-se a um sinal de revisão usado pelos editores de texto para suprimir uma palavra, letra ou expressão textual. Esse recurso é significativo na narrativa da História do Cerco de Lisboa, visto que Raimundo corrige não somente os erros tipográficos, como também a história original contada pelo Historiador, alterando o rumo da História do Cerco de Lisboa ocorrida em 1147.