(UNICAMP - 2019 - 1ª fase)
“Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.”
(Clarice Lispector, “Amor”, em Laços de família. 20a ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990, p. 39.)
Ao caracterizar a personagem Ana, a expressão “piedade de leão” reúne valores opostos, remetendo simultaneamente à compaixão e à ferocidade. É correto afirmar que, no conto “Amor”, essa formulação
revela um embate de natureza social, já que a pobreza do cego causa náuseas na personagem.
expressa o dilema cristão da alma pecadora diante de sua incapacidade de fazer o bem.
indica um conflito psicológico, uma vez que a personagem não se sente capaz de amar.
alude a um contraste moral e existencial que provoca na personagem um sentimento de angústia.
Gabarito:
alude a um contraste moral e existencial que provoca na personagem um sentimento de angústia.
Gabarito: D
Comentário: Neste trecho do conto “ Amor”, a personagem Ana - após o momento de epifania ao olhar o cego mascando goma - sente-se “ faminta”, ansiosa por deixar tudo para trás, pois “ seu coração se enchera com a pior vontade de viver” . Ela sente-se deslocada em sua própria casa e culpa-se por pensar em abandonar marido e filhos.
Comentário da banca da UNICAMP:
A alternativa correta é a d, uma vez que a angústia da personagem decorre do contraste entre a piedade violenta e enojada pelo cego e a piedade crua que a leva a defrontar-se com o horror e a delícia de se descobrir viva. A alternativa a é incorreta: salienta a pobreza do cego, mas não é a condição social desse homem que causa incômodo à protagonista. A alternativa b é incorreta, porque a culpa que a protagonista sente (quando se lembra das crianças no Jardim) não é a culpa da pecadora incapaz de fazer o bem, mas a da mulher ao mesmo tempo fascinada e enojada. O conflito psicológico a que faz referência a alternativa c, também incorreta, não decorre da incapacidade de amar: o narrador anuncia que Ana amava o mundo, e também o cego.