(UNICAMP - 2014 - 2ª FASE)
Quase sempre levava-lhe presentes (...) e perguntava-lhe se precisava de roupa ou de calçado. Mas um belo dia, apresentou-se tão ébrio, que a diretora lhe negou a entrada. (...) Tempos depois, Senhorinha entregou à mãe uma conta de seis meses de pensão do colégio, com uma carta em que a diretora negavase a conservar a menina (...). Foi à procura do marido; (...) Jerônimo apareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que não tem ânimo de deixar o vício (...).
─ Eu não vim cá por passeio! prosseguiu Piedade entre lágrimas! Vim cá para saber da conta do colégio!...
─ Pague-a você!, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que não tenho nenhum! (...)
E as duas, mãe e filha, desapareceram; enquanto Jerônimo (...) monologava, furioso (...). A mulata então aproximou-se dele, por detrás; segurou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na boca... Jerônimo voltou-se para a amante... E abraçaram-se com ímpeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas fosse uma interrupção nos seus amores.
(Aluísio de Azevedo, O Cortiço. São Paulo: Ática, 1983, p. 137 e 139.)
O cortiço não dava ideia do seu antigo caráter. (...) e, com imenso pasmo, viram que a venda, a sebosa bodega, onde João Romão se fez gente, ia também entrar em obras. (...) levantaria um sobrado, mais alto que o do Miranda (...). E a crioula? Como havia de ser? (...) Como poderia agora mandá-la passear assim, de um momento para outro, se o demônio da crioula o acompanhava já havia tanto tempo e toda a gente na estalagem sabia disso? (...) Mas, só com lembrar-se da sua união com aquela brasileirinha fina e aristocrática, um largo quadro de vitórias rasgava-se defronte da desensofrida avidez de sua vaidade. (...) caber-lhe-ia mais tarde tudo o que o Miranda possuía...
(Idem, p. 133 e 145.)
a) Considerando-se a pirâmide social representada na obra, em que medida as personagens Rita Baiana e Bertoleza, referidas nos excertos, poderiam ser aproximadas?
b) Levando em conta a relação das personagens com o meio, compare o final das trajetórias do português Jerônimo e do português João Romão.
Gabarito:
Resolução:
A) As duas figuras possuem relações com personagens masculinos, Jerônimo e João Romão, respectivamente. No entanto, as duas são mestiças e pobres, tratadas como objetos sexuais e se encontram no primeiro patamar da hierarquia social, em que, no romance, é composto por grande parte de brasileiros (mestiços, negros libertos, brancos pobres). Essa população é constantemente explorada pelos colonos portugueses, como João Romão e Miranda, que vieram ao Brasil apenas para lucrar em cima disso (“fazer dinheiro”).
B) A imagem das duas personagens masculinas do romance apresentam a ideia dos portugueses que se abatem no meio do caminho e fracassam, enquanto, de um outro lado, temos os portugueses vitoriosos e prósperos. Comparativamente, no primeiro trecho podemos ver a imagem do português Jerônimo, homem honesto e cuidadoso, mas que sucumbiu pelas tentações do espaço e deixou-se vencer pelos apelos sensuais de Rita Baiana, personagem caracterizada como mulata. Essa imagem narra o fracasso do personagem masculino. De um lado oposto, e o segundo trecho apresenta a imagem do vendeiro João Romão, enriquecido pelo meio e, por causa disso, ascendeu socialmente por meio da exploração e de atitudes oportunas, principalmente em cima de Bertoleza, uma crioula. Observa-se, portanto, que os personagens masculinos possuem caminhadas opostas no romance. Enquanto para Jerônimo o espaço contribui negativamente para sua antiga identidade, para João Romão o mesmo espaço intensifica sua antiga identidade.