(UNICAMP - 2014 - 2ª FASE)
Crianças Ladronas
Já por várias vezes o nosso jornal, que é sem dúvida o órgão das mais legítimas aspirações da população baiana, tem trazido notícias sobre a atividade criminosa dos Capitães da Areia, nome pelo qual é conhecido o grupo de meninos assaltantes e ladrões que infestam a nossa urbe.
(Jorge Amado, Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 9.)
O Sem-Pernas já tinha mesmo (certo dia em que penetrara num parque de diversões armado no Passeio Público) chegado a comprar entrada para um [carrossel], mas o guarda o expulsou do recinto porque ele estava vestido de farrapos. Depois o bilheteiro não quis lhe devolver o bilhete da entrada, o que fez com que o Sem-Pernas metesse as mãos na gaveta da bilheteria, que estava aberta, abafasse o troco, e tivesse que desaparecer do Passeio Público de uma maneira muito rápida, enquanto em todo o parque se ouviam os gritos de: “Ladrão!, ladrão!” Houve uma tremenda confusão enquanto o Sem-Pernas descia muito calmamente a Gamboa de Cima, levando nos bolsos pelo menos cinco vezes o que tinha pago pela entrada. Mas o Sem-Pernas preferiria, sem dúvida, ter rodado no carrossel (...).
(Idem, p. 63.)
a) O primeiro excerto é representativo do conjunto de textos jornalísticos que iniciam Capitães da Areia. Que voz social eles expressam?
b) O narrador, no segundo trecho, adere a um ponto de vista social que caracteriza a ficção de Jorge Amado. Que ponto de vista é esse?
Gabarito:
Resolução:
A) Observa-se que esses textos jornalísticos que antecedem a narrativa propriamente dita possuem a voz e a ideologia das classes dominantes baianas, detentores do poder dos meios de comunicação, e, nesse sentido, vão de encontro à voz narrativa no segundo momento do romance.
B) Da leitura do segundo trecho, percebe-se que o narrador assume a posição aliada ao universo dos marginalizados e excluídos, situação que possui diversos recortes possíveis, como a questão dos negros, presença das mulheres, situação dos pobres e operários e, como nesta obra de Amado especificamente, o abandono de crianças e adolescentes. A interferência do narrador, ao final do trecho (Mas o Sem-Pernas preferiria, sem dúvida, ter rodado no carrossel...), reforça essa defesa, no momento em que o narrador não deixa de identificar no Sem-Pernas o desejo e o sentimento infantil. Além disso, é evidente também o objetivo da denúncia social que motiva a voz do narrador, uma vez que ela se lança à representação positiva do excluído, tanto no seu aspecto social, quanto psicológico.