(UNICAMP - 2014 - 2 FASE)
Operário no mar
Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na sua blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. (...) Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos (...).
(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.23.)
a) No trecho citado, o eu lírico se pergunta sobre o destino do operário: “Para onde vai ele, pisando assim tão firme?” Tendo em mente a crítica político-social que estrutura o conjunto do livro, explique a razão da dúvida do eu lírico.
b) No fragmento do poema “Operário no mar”, o eu lírico manifesta os sentimentos de vergonha e de desprezo na sua relação com o operário. Qual é a posição do eu lírico no que diz respeito ao papel do artista como agente de transformação da realidade social?
Gabarito:
Resolução:
A) O motivo pelo qual o eu lírico tem a dúvida se dá pela fé na possibilidade de os operários mudarem a sua condição histórica e política. Ou seja, essa possibilidade de mudança é onde a classe operária depositaria a esperança de transformação social, sentimento esse alimentado pela empatia de intelectuais e dos artistas. Isso porque eles são aqueles capazes de criticar abertamente as situações de realidades absurdas e opressoras sofridas pela população.
B) O eu lírico se posiciona cético na imagem do artista como sendo de fato relevante na situação social do trabalhador, o que faz com que o eu lírico também possua uma descrença ao papel politizador do artista. Ele, a voz poética por trás, demonstra ter um sentimento vergonhoso ao chamar o operário de “meu irmão”, já que "ser irmão" estabelece, em alguma medida, um vínculo e a partilha de valores comuns.