(UNICAMP - 2012 - 2ª FASE)
O parágrafo reproduzido abaixo introduz a crônica intitulada Tragédia concretista, de Luís Martins.
O poeta concretista acordou inspirado. Sonhara a noite toda com a namorada. E pensou: lábio, lábia. O lábio em que pensou era o da namorada, a lábia era a própria. Em todo o caso, na pior das hipóteses, já tinha um bom começo de poema. Todavia, cada vez mais obcecado pela lembrança daqueles lábios, achou que podia aproveitar a sua lábia e, provisoriamente desinteressado da poesia pura, resolveu telefonar à criatura amada, na esperança de maiores intimidades e vantagens. Até os poetas concretistas podem ser homens práticos.
(Luís Martins, Tragédia concretista, em As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 132.)
a) Compare lábio e lábia quanto à forma e ao significado. Considerando a especificidade do poeta, justifique a ocorrência dessas duas palavras dentro da crônica.
b) Explique por que a palavra todavia é usada para introduzir um dos enunciados da crônica.
Gabarito:
Resolução:
A) Comparando as palavras, lábio e lábia são semelhantes quanto à forma (diferem apenas na terminação e que não é marcação de gênero), mas diferentes nos seus significados (lábio significa ‘cada uma das duas partes externas da boca’ e lábia significa ‘habilidade na argumentação, na persuasão, no convencimento’). É importante destacar que o poeta é concretista e, por isso, explora a relação entre forma e significado, o que pode justificas a ocorrência de lábio e lábia na crônica.
B) A palavra todavia é usada para sinalizar uma quebra de expectativa: ao invés de fazer um poema com as palavras lábio e lábia, o poeta telefone para sua amada na tentativa de conseguir intimidades e vantagens.