(UNESP - 2022 - 1ª fase - DIA 2)
O Dr. França, Juiz de Direito numa cidadezinha sertaneja, andava em meio século, tinha gravidade imensa, verbo escasso, bigodes, colarinhos, sapatos e ideias de pontas muito finas. Vestia-se ordinariamente de preto, exigia que todos na justiça procedessem da mesma forma – e chegou a mandar retirar-se do Tribunal um jurado inconveniente, de roupa clara, ordenar-lhe que voltasse razoável e fúnebre, para não prejudicar a decência do veredicto.
Não via, não sorria. Quando parava numa esquina, as cavaqueiras dos vadios gelavam. Ao afastar-se, mexia as pernas matematicamente, os passos mediam setenta centímetros, exatos, apesar de barrocas¹ e degraus. A espinha não se curvava, embora descesse ladeiras, as mãos e os braços executavam os movimentos indispensáveis, as duas rugas horizontais da testa não se aprofundavam nem se desfaziam.
Na sua biblioteca digna e sábia, volumes bojudos, tratados majestosos, severos na encadernação negra semelhante à do proprietário, empertigavam-se – e nenhum ousava deitar-se, inclinar-se, quebrar o alinhamento rigoroso.
Dr. França levantava-se às sete horas e recolhia-se à meia-noite, fizesse frio ou calor, almoçava ao meio-dia e jantava às cinco, ouvia missa aos domingos, comungava de seis em seis meses, pagava o aluguel da casa no dia 30 ou no dia 31, entendia-se com a mulher, parcimonioso, na linguagem usada nas sentenças, linguagem arrevesada e arcaica das ordenações. Nunca julgou oportuno modificar esses hábitos salutares.
Não amou nem odiou. Contudo exaltou a virtude, emanação das existências calmas, e condenou o crime, infeliz consequência da paixão.
Se atentássemos nas palavras emitidas por via oral, poderíamos afirmar que o Dr. França não pensava. Vistos osautos, etc., perceberíamos entretanto que ele pensava com alguma frequência. Apenas o pensamento de Dr. França não seguia a marcha dos pensamentos comuns.
Operava, se não nos enganamos, deste modo: “considerando isto, considerando isso, considerando aquilo, considerando ainda mais isto, considerando porém aquilo, concluo.” Tudo se formulava em obediência às regras – e era impossível qualquer desvio.
Dr. França possuía um espírito, sem dúvida, espírito redigido com circunlóquios, dividido em capítulos, títulos, artigos e parágrafos. E o que se distanciava desses parágrafos, artigos, títulos e capítulos não o comovia, porque Dr. França está livre dos tormentos da imaginação.
(Graciliano Ramos. Viventes das Alagoas, 1976.)
Expressa sentido hipotético a forma verbal sublinhada em:
“Dr. França possuía um espírito, sem dúvida, espírito redigido com circunlóquios, dividido em capítulos, títulos, artigos e parágrafos.” (7o parágrafo)
“Ao afastar-se, mexia as pernas matematicamente, os passos mediam setenta centímetros, exatos, apesar de barrocas e degraus.” (2o parágrafo)
“Vistos os autos, etc., perceberíamos entretanto que ele pensava com alguma frequência.” (6o parágrafo)
“Tudo se formulava em obediência às regras – e era impossível qualquer desvio.” (6o parágrafo)
“Nunca julgou oportuno modificar esses hábitos salutares.” (4o parágrafo)
Gabarito:
“Vistos os autos, etc., perceberíamos entretanto que ele pensava com alguma frequência.” (6o parágrafo)
O enunciado pede para que o aluno aponte a alternativa que contém uma forma verbal que, no contexto, indica uma hipótese, isto é, algo que poderia acontecer (mas não aconteceu e não há certeza se acontecerá). Assim, temos:
a) Alternativa incorreta. O verbo indica que Dr. França efetivamente possuía, no passado.
b) Alternativa incorreta. O verbo representa uma ação no passado.
c) Alternativa correta. A frase hipotetiza que, caso os autos sejam vistos, seria possível percebermos que o Dr. França pensa frequentemente.
d) Alternativa incorreta. O verbo apresenta um acontecimento concreto do passado.
e) Alternativa incorreta. O verbo apresente uma ação concreta que se deu no passado.