(UNESP - 2022 - 1ª fase - DIA 1)
Leia a crônica “Almas penadas”, de Olavo Bilac, publicada originalmente em 1902
Outro fantasma?... é verdade: outro fantasma. Já tardava. O Rio de Janeiro não pode passar muito tempo sem o seu lobisomem. Parece que tudo aqui concorre para nos impelir ao amor do sobrenatural [...]. Agora, já se não adormecem as crianças com histórias de fadas e de almas do outro mundo. Mas, ainda há menos de cinquenta anos, este era um povo de beatos [...]. [...] Os tempos melhoraram, mas guardam ainda um pouco dessa primitiva credulidade. Inventar um fantasma é ainda um magnífico recurso para quem quer levar a bom termo qualquer grossa patifaria. As almas simples vão propagando o terror, e, sob a capa e a salvaguarda desse temor, os patifes vão rejubilando.
O novo espectro que nos aparece é o de Catumbi. Começou a surgir vagamente, sem espalhafato, pelo pacato bairro — como um fantasma de grande e louvável modéstia. E tão esbatido1 passava o seu vulto na treva, tão sutilmente deslizava ao longo das casas adormecidas — que as primeiras pessoas que o viram não puderam em consciência dizer se era duende macho ou duende fêmea. [...] O fantasma não falava — naturalmente por saber de longa data que pela boca é que morrem os peixes e os fantasmas... Também, ninguém lhe falava — não por experiência, mas por medo. Porque, enfim, pode um homem ter nascido num século de luzes e de descrenças, e ter mamado o leite do liberalismo
nos estafados seios da Revolução Francesa, e não acreditar nem em Deus nem no Diabo — e, apesar disso, sentir a voz presa na garganta, quando encontra na rua, a desoras2, uma avantesma3...
Assim, um profundo mistério cercava a existência do lobisomem de Catumbi — quando começaram de aparecer vestígios assinalados de sua passagem, não já pelas ruas, mas pelo interior das casas. Não vades agora crer que se tenham sumido, por exemplo, as hóstias consagradas da igreja de Catumbi, ou que os empregados do cemitério de S. Francisco de Paula tenham achado alguma sepultura vazia, ou que algum circunspecto pai de família, certa manhã, ao despertar, tenha dado pela falta... da própria alma. Nada disso. Os fenômenos eram outros. Desta casa sumiram-se as arandelas, daquela outra as galinhas, daquela outra as joias... E a polícia, finalmente, adquiriu a convicção de que o lobisomem, para perpétua e suprema vergonha de toda a sua classe, andava acumulando novos pecados sobre os pecados antigos, e dando-se à prática de excessos menos merecedores de exorcismos que de cadeia.
Dizem as folhas4 que a polícia, competentemente munida de bentinhos5 e de revólveres, de amuletos e de sabres, assaltou anteontem o reduto do fantasma. Um jornal, dando conta da diligência, disse que o delegado achou dentro da casa sinistra — um velho pardieiro6 que fica no topo de uma ladeira íngreme — alguns objetos singulares que pareciam instrumentos “pertencentes a gatunos”. E acrescentou: “alguns morcegos esvoaçavam espavoridos, tentando apagar as velas acesas que os sitiantes7 empunhavam”.
Esta nota de morcegos deve ser um chique romântico do noticiarista. No fundo da alma de todo o repórter há sempre um poeta... Vamos lá! nestes tempos, que correm, já nem há morcegos. Esses feios quirópteros, esses medonhos ratos alados, companheiros clássicos do terror noturno, já não aparecem pelo bairro civilizado de Catumbi. Os animais, que esvoaçavam espavoridos, eram sem dúvida os frangões roubados aos quintais das casas... Ai dos fantasmas! e mal dos lobisomens! o seu tempo passou.
(Olavo Bilac. Melhores crônicas, 2005.)
1 esbatido: de tom pálido.
2 a desoras: muito tarde.
3 avantesma: alma do outro mundo, fantasma, espectro.
4 folha: periódico diário, jornal.
5 bentinho: objeto de devoção contendo orações escritas.
6 pardieiro: prédio velho ou arruinado.
7 sitiante: policial.
Em relação à reportagem sobre a diligência policial (4º e 5º parágrafos), o cronista destaca seu caráter
objetivo.
enigmático.
enfadonho.
fantasioso.
macabro
Gabarito:
fantasioso.
A) INCORRETA: pois a questão nos mostra que os jornais não são objetivos, ou seja, não narram apenas os fatos. Vemos isso porque no 4º parágrafo é colocado um juízo de valor que o jornal faz sobre o seu objeto de análise (é dito "casa sinistra" e não somente uma casa abandonada, como é de costume). Além disso, há uma sentença no 5º parágrafo que mostra o caráter subjetivo dessa reportagem: "No fundo da alma de todo o repórter há sempre um poeta"
B) INCORRETA: pois o conceito de "enigmático" diz respeito a algo misterioso, indecifrável ou de difícil compreensão. No entanto, o que a reportagem nos mostra é totalmente o oposto, que os objetos que ali se encontravam se encaixavam com as histórias de objetos perdidos naquela cidade.
C) INCORRETA: pois o conceito de "enfadonho", assim como o anterior, não é adequado com a descrição que é feita da reportagem. Se fosse uma reportagem monótono, ela não teria tantas descrições como são feitas: as armas que a polícia empunhava, o interesse do jornal em colocar o que os policiais encontraram naquela casa, etc. Ou seja, o jornal criou todo um contexto a respeito da expedição dos policiais àquela casa para que os seus leitores ficassem interessados e não desistissem da leitura.
D) CORRETA: percebe-se que se trata de uma descrição fantasiosa por uma das primeiras descrições que o é feita do local pelo autor (4º parágrafo): um "reduto de fantasma". Ao se dizer isso, os jornais já colocam que o que for encontrado ali, necessariamente dirá a respeito de fantasmas, de criaturas fantasiosas, de seres que não são desse mundo. Todas as descrições vão confirmar essa visão, mesmo que não seja de modo macabro, mas vai confirmar o que foi dito nos parágrafos anteriores do texto: que seres não identificados roubaram objetos de algumas casas e esses objetos estão ali naquele "reduto de fantasma".
E) INCORRETA: o caráter macabro não é destacado pela reportagem. Isso porque se os repórteres quisessem provocar esse efeito, possivelmente ressaltariam as características macabras do local, colocando juízo de valor nas descrições que fizessem (por exemplo, "Morcegos deteriorados", "uma casa que parecia ser habitada por seres que não são desse mundo", etc.). As descrições que são feitas são diretas: "morcegos espavoridos", "velas acesas", "objetos singulares".