(UNESP - 2021 - 1ª fase - DIA 2)
Para responder às questões de 12 a 16, leia o trecho do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.
Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta — só o deo-gratias; e o troco. Bobeia. Na feira de São João Branco, um homem andava falando: — “A pátria não pode nada com a velhice...” Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas — ele dizia: aqueles todos anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos os animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. [...] Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.
(Grande sertão: veredas, 2015.)
O evento histórico mencionado no texto está relacionado
à Revolta da Chibata.
à Revolta da Armada.
ao Cangaço.
ao Abolicionismo.
ao Tenentismo.
Gabarito:
ao Tenentismo.
(A) Incorreta. Não há nenhuma referência no texto à Revolta da Chibata ou às suas principais características, que envolve uma revolta de marinheiros negros no Rio de Janeiro que buscavam o fim dos castigos físicos no exército.
(B) Incorreta. Não há nenhuma referência à Revolta da Armada, que aconteceu ainda no século XIX, promovida por algumas unidades da marinha devido ao autoritarismo dos primeiros governos republicanos.
(C) Incorreta. Não há referência aos movimentos dos cangaceiros, que aconteceu entre o final do século XIX e início do século XX no sertão nordestino, estando relacionado ao banditismo.
(D) Incorreta. Não há referência ao movimento abolicionista, tendo em vista que o texto não cita a escravidão.
(E) Correta. Ao londo do texto, o narrador cita que "Os revoltosos depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de todos os animais de sela." Os "Soldados de Prestes" se refere à Coluna Prestes, um movimento de tenentes do exército vindos do Rio Grande do Sul e de São Paulo que marcharam pelo interior do país com o objetivo de derrubar as oligarquias regionais.