(UNESP - 2018/2 - 2 fase - Redação)
Texto 1
A maioria dos brasileiros segue contrária à ampliação do porte de armas de fogo. Segundo recente pesquisa Datafolha, 56% dos entrevistados se disseram contrários ao porte legal estendido a todos os cidadãos.
Sancionado em 2003, o Estatuto do Desarmamento, criado para controlar o uso de armas no país, é constantemente alvo de críticas por não ter contribuído para a redução da criminalidade. Especialistas em segurança pública, porém, dizem o contrário.
(“Maioria no país segue contrária à ampliação do porte legal de armas”. www1.folha.uol.com.br, 07.01.2018. Adaptado.)
Texto 2
Imagine um país onde qualquer pessoa com mais de 21 anos pudesse andar armada na rua, dentro do carro, nos bares, festas, parques e shoppings centers. Em um passado não muito distante, esse país era o Brasil. Até 2003, aqui era possível, sem muita burocracia, comprar uma pistola ou um revólver em lojas de artigos esportivos, onde as armas ficavam em prateleiras na seção de artigos de caça, ao lado de varas de pesca e anzóis.
Mas, de acordo com os indicadores da época, os anos em que a população podia se armar para teoricamente “fazer frente à bandidagem” não foram de paz absoluta, mas de crescente violência, segundo dados do Ministério da Saúde e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Para conter o avanço das mortes, foi sancionado, em 2003, o Estatuto do Desarmamento, que restringiu drasticamente a posse e o acesso a armas no país. Atualmente a taxa de homicídios está em 29,9 assassinatos por 100.000 habitantes, o que pressupõe que o desarmamento não reduziu drasticamente os homicídios mas estancou seu crescimento.
O tema é sensível, uma vez que um grupo de deputados e senadores quer voltar para os velhos tempos, quando era possível comprar armas com facilidade. O tema ganha eco também em alguns setores da sociedade que enxergam no direito de se armar – e a reagir à violência — uma possibilidade de “salvar vidas”.
Daniel Cerqueira, pesquisador do IPEA, explica que uma grave crise econômica ocorrida durante a década de 1980 ampliou a desigualdade social e foi um dos fatores responsáveis pelo aumento das taxas de homicídio. “No meio desse processo, as pessoas começaram a comprar mais armas. Isso fez com que o ciclo de violência se UNESP - 2ª FASE - JUNHO/2018 autoalimentasse. Quanto mais medo as pessoas sentem e mais homicídios ocorrem, mais elas se armam. Quanto mais se armam, mais mortes temos”, afirma. Ele destaca que, ao contrário do que frequentemente se diz, a maior parte dos crimes com morte não são praticados pelo “criminoso contumaz”, e sim “pelo cidadão de bem que, em um momento de ira, perde a cabeça”.
Nem todos concordam com Cerqueira. “As pessoas se sentiam mais seguras naquela época”, afirma Benê Barbosa, um dos mais antigos militantes pró-armas do Brasil. De acordo com Barbosa, nos anos de 1990 deveria haver “aproximadamente meio milhão de pessoas armadas em São Paulo, e você não tinha bangue-bangue nas ruas”. Para ele, o Estatuto do Desarmamento “elitizou” a posse de armas, ao instituir a cobrança de taxas proibitivas.
(Gil Alessi. “Como era o Brasil quando as armas eram vendidas em shoppings e munição nas lojas de ferragem”. http://brasil.elpais.com, 31.10.2017. Adaptado.)
Texto 3
Devemos liberar as armas? Sim.
“O direito à autodefesa é pilar de uma sociedade livre e democrática. No Brasil, os bandidos continuam a ter acesso livre às armas de fogo e o cidadão fica à mercê dos criminosos.” Denis Rosenfield (professor de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul).
Devemos liberar as armas? Não.
“Voltar a armar a sociedade é um fator de risco para o aumento das mortes violentas no país. O uso de armas deve ser restrito às forças policiais.” José Mariano Beltrame (ex-secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro).
(“Devemos liberar as armas?”. https://epoca.globo.com, 24.04.2015. Adaptado.)
Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva uma dissertação, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema:
Liberar o porte de armas de fogo a todos os cidadãos diminuirá a violência no Brasil?
Gabarito:
Resolução:
Para ajudar a desenvolver a redação "Liberar o porte de armas de fogo a todos os cidadãos diminuirá a violência no Brasil?", o aluno possuia 3 textos motivadores que o ajudavam na compreensão do que era pedido para ser discutido, sendo esses textos:
1. Apresentava os resultados de uma pesquisa feita pelo Datafolha sobre o porte de armas de fogo, a qual revelou que 56% dos cidadãos entrevistados se disse contrária ao porte legal – a despeito de o Estatuto do Desarmamento, sancionado em 2003, não ter contribuído para a redução da criminalidade.
2. Um texto que observava que os anos que precederam o Estatuto do Desarmamento não teriam sido de “paz absoluta”. Além disso, apontava que ao menos a proibição da posse de arma teria estancado o crescimento de homicídios no país, ponto desconsiderado por alguns deputados e senadores que, apoiados por certos setores da sociedade, estariam empenhados em resgatar o passado anterior ao Estatuto referendado pela população.
3. Apresenta um texto com posicionamentos antagônicos acerca do assunto: enquanto o professor Denis Rosenfeld argumentava em favor do “direito à autodefesa”, o ex-secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro alertava contra o aumento de “mortes violentas no país” na hipótese da liberação de armas.
Logo, o tema, com base no que foi dado, levava o candidato a responder à questão proposta, podendo ser contra à liberação do porte de arma de fogo, caso optasse por esse caminho, o candidato poderia citar o contexto de banalização da violência vigente no Brasil, assim como abordar o despreparo dos cidadãos quanto ao uso de armas como forma de proteção, o que acaba gerando mais acidentes. Porém, caso o candidato optasse por posicionar-se favorável à autodefesa do povo brasileiro, ele poderia lembrar a facilidade com que criminosos obtêm armas de fogo, o que torna os cidadãos de bem vulneráveis à violência. Além disso, seria apropriado enfatizar que o Estatuto do Desarmamento, vigente há 19 anos, não teria sido eficaz na redução da criminalidade. Se julgasse válido, o candidato poderia propor a fiscalização das fronteiras por onde passam as armas contrabandeadas, bem como o fim da corrupção que facilitaria o fornecimento de armas por parte de agentes de segurança a criminosos.