(UNESP - 2017 - 1ª FASE)
Leia o excerto de Auto da Barca do Inferno do escritor português Gil Vicente (1465?-1536?). A peça prefigura o destino das almas que chegam a um braço de mar onde se encontram duas barcas (embarcações): uma destinada ao Paraíso, comandada pelo anjo, e outra destinada ao Inferno, comandada pelo diabo.
Vem um Frade com uma Moça pela mão […]; e ele mesmo fazendo a baixa1 começou a dançar, dizendo
FRADE: Tai-rai-rai-ra-rã ta-ri-ri-rã;
Tai-rai-rai-ra-rã ta-ri-ri-rã;
Tã-tã-ta-ri-rim-rim-rã, huha!
DIABO: Que é isso, padre? Quem vai lá?
FRADE: Deo gratias2! Sou cortesão. Diabo: Danças também o tordião3?
FRADE: Por que não? Vê como sei.
DIABO: Pois entrai, eu tangerei4 e faremos um serão. E essa dama, porventura?
FRADE: Por minha a tenho eu, e sempre a tive de meu.
DIABO: Fizeste bem, que é lindura! Não vos punham lá censura no vosso convento santo?
FRADE: E eles fazem outro tanto!
DIABO: Que preciosa clausura5! Entrai, padre reverendo!
FRADE: Para onde levais gente?
DIABO: Para aquele fogo ardente que não temestes vivendo.
FRADE: Juro a Deus que não te entendo! E este hábito6 não me vai7?
DIABO: Gentil padre mundanal8, a Belzebu vos encomendo!
FRADE: Corpo de Deus consagrado! Pela fé de Jesus Cristo, que eu não posso entender isto! Eu hei de ser condenado? Um padre tão namorado e tanto dado à virtude? Assim Deus me dê saúde, que eu estou maravilhado!
DIABO: Não façamos mais detença9 embarcai e partiremos; tomareis um par de remos.
FRADE: Não ficou isso na avença10.
DIABO: Pois dada está já a sentença!
FRADE: Por Deus! Essa seria ela? Não vai em tal caravela minha senhora Florença? Como? Por ser namorado e folgar c’uma mulher? Se há um frade de perder, com tanto salmo rezado?!
DIABO: Ora estás bem arranjado!
FRADE: Mas estás tu bem servido.
DIABO: Devoto padre e marido, haveis de ser cá pingado11…
(Auto da Barca do Inferno, 2007.)
1baixa: dança popular no século XVI.
2Deo gratias: graças a Deus.
3tordião: outra dança popular no século XVI.
4tanger: fazer soar um instrumento.
5clausura: convento.
6hábito: traje religioso.
7val: vale.
8mundanal: mundano.
9detença: demora.
10avença: acordo.
11ser pingado: ser pingado com gotas de gordura fervendo (segundo o imaginário popular, processo de tortura que ocorreria no inferno).
No excerto, o escritor satiriza, sobretudo,
a compra do perdão para os pecados cometidos.
preocupação do clero com a riqueza material.
o desmantelamento da hierarquia eclesiástica.
a concessão do perdão a almas pecadoras.
o relaxamento dos costumes do clero.
Gabarito:
o relaxamento dos costumes do clero.
Na peça Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente utiliza dos personagens para criar alegorias que representam tipos sociais. Dotada de teor crítico, alegoriza setores como o clero e a nobreza portuguesa. No presente texto, através da figura do padre, que representa os maus sacerdotes, ele examina o comportamento desse grupo. O viés que é dado na parte que fora apresenta na questão, denota costumes, de cunho sexual, não condizentes com a postura de uma figura religiosa, que sabemos ter compromissos celibatários. Essa postura traduz um rompimento com os costumes tradicionais do clero. Dessa maneira, a alternativa correta é [E]