(UNESP - 2017/2 - 1ª FASE)
Leia o soneto “Alma minha gentil, que te partiste”, do poeta português Luís de Camões (1525?-1580)
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.
(Sonetos, 2001.)
Embora predomine no soneto uma visão espiritualizada da mulher (em conformidade com o chamado platonismo), verifica-se certa sugestão erótica no seguinte verso:
“não te esqueças daquele amor ardente” (2ª estrofe)
“da mágoa, sem remédio, de perder-te,” (3ª estrofe)
“memória desta vida se consente,” (2ª estrofe)
“que tão cedo de cá me leve a ver-te,” (4ª estrofe)
“e viva eu cá na terra sempre triste.” (1ª estrofe)
Gabarito:
“não te esqueças daquele amor ardente” (2ª estrofe)
[A]
Na expressão “amor ardente”, o adjetivo ardente possui uma carga semântica ligada à sensação física que pode advir do amor, isto é, ao calor sensual do corpo. Assim, percebe-se um uso conotativo dessa ideia sensorial para exprimir um desejo menos espiritualizado e mais erótico, corpóreo e carnal diante da mulher amada.
Sobre as demais alternativas:
b) “da mágoa, sem remédio, de perder-te,” >> o eu-lírico exprime a angústia e a dor irremediável em perder a mulher amada. Não há uma concepção carnal oi erotizada dessa relação;
c) “memória desta vida se consente,” >> nesse verso, o eu lírico especula sobre a possibilidade de que o amor seja lembrado pela mulher na eternidade, no espaço etéreo. É uma visão sublime da memória e da saudade, sem contornos sexuais;
d) “que tão cedo de cá me leve a ver-te,” >> a ideia, aqui, é de um desejo pela morte, que seria o meio de reunião com a amada num plano espiritual. Novamente, uma visão sublime e espiritualizada, e não erótica;
e) “e viva eu cá na terra sempre triste" >> o verso ressalta a tristeza do eu-lírico em sua vida terrena sem a mulher amada (como na letra [B]). Não há sugestão erótica.