(UNESP - 2014 - 1ª FASE)
Governos que se metem na vida dos outros são governos autoritários. Na história temos dois grandes exemplos: o fascismo e o comunismo. Em nossa época existe uma outra tentação totalitária, aparentemente mais invisível e, por isso mesmo, talvez, mais perigosa: o "totalitarismo do bem". A saúde sempre foi um dos substantivos preferidos das almas e dos governos autoritários. Quem estudar os governos autoritários verá que a "vida cientificamente saudável" sempre foi uma das suas maiores paixões. E, aqui, o advérbio "cientificamente é quase vago porque o que vem primeiro é mesmo o desejo de higienização de toda forma de vício, sujeira, enfim, de humanidade não correta. Nosso maior pecado contemporâneo é não reconhecer que a humanidade do humano está além do modo "correto" de viver. E vamos pagar caro por isso porque um mundo só de gente "saudável" é um mundo sem Eros.
(Luiz Felipe Pondé. “Gosto que cada um sente na boca não é da conta do governo”. Folha de S.Paulo, 14.03.2012. Adaptado.)
Na concepção do autor, o totalitarismo
é um sistema político exclusivamente relacionado com o fascismo e o comunismo.
inexiste sob a égide de regimes políticos institucionalmente democráticos e liberais.
depende necessariamente de controles de natureza policial e repressiva dos comportamentos.
mobiliza a ciência para estabelecer critérios de natureza biopolítica sobre a vida.
estabelece regras de comportamento subordinadas à autonomia dos indivíduos.
Gabarito:
mobiliza a ciência para estabelecer critérios de natureza biopolítica sobre a vida.
D: O texto fala sobre como a ciência pode ser um mecanismo de atuação de governos totalitários, por meio de discursos sobre uma vida saudável que distorcem uma política de higienização da população ("humanidade não correta"). É uma forma de controle sobre a vida particular da população a partir de critérios biopolíticos.
A: O autor não afirma que o totalitarismo é exclusivo de governos fascistas e comunistas: "Na história temos dois grandes exemplos: o fascismo e o comunismo."
B: Regimes políticos democráticos e liberais não são imunes à governos totalitários.
C: Não necessariamente o totalitarismo depende de controles policial e repressivo. Pode ser marcado, como explica o texto, por políticas de higienização populacional através de discursos sobre saúde e ciência ("vida cientificamente saudável"), uma forma de dominação e controle velados.
E: As regras de comportamento, em governos totalitários, não se fundamentam na autonomia dos indivíduos, mas antes no controle destes.