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Questão 2

UFU 2022
Português

(UFU - 2022)

 

A) Ao se falar sobre a esfera socioeconômica brasileira, Sérgio Buarque de Hollanda identifica um padrão em que o favoritismo, o conluio e o privilégio se sobrepõem à justiça por oportunidades no país.

 

[...] Assim, raramente se tem podido chegar, na esfera dos negócios, a uma adequada racionalização; o freguês ou o cliente há de assumir de preferência a posição do amigo. Não há dúvida de que, desse comportamento social, em que o sistema de relações se edifica essencialmente sobre laços diretos, de pessoa a pessoa, procedam os principais obstáculos que [...] se erigem contra a rígida aplicação das normas de justiça e de quaisquer prescrições legais.

HOLLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. 26.ed. São Paulo: Cia das Letras, 1995. p. 136

 

Considerando-se a explanação de Sérgio Buarque de Hollanda, discorra sobre como as culturas do favoritismo e da fraude são expostas no conto “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto, citando elementos do enredo.

B) Considerando-se a cultura do favoritismo e da fraude na conjuntura brasileira, redija um texto, comparando os personagens Castelo (do conto “O homem que sabia javanês”) e Hildegardo Brandão, o Cazuza (do conto “O único assassinato de Cazuza”), ambos criados por Lima Barreto, a partir do contraste entre o “vencedor” e o “perdedor” aos olhos da sociedade, refletindo sobre o contexto de suas trajetórias e suas escolhas morais. Considere a alegoria que cada um representa na realidade nacional, citando elementos dos enredos dos contos.

Gabarito:

Resolução:

A) O candidato deve associar o enredo do conto ao pensamento exposto no excerto citado. No texto de Lima Barreto, o narrador-protagonista, Castelo, logo no início afirma burlar respeitabilidades para poder viver, o que já significou até trabalhar como adivinho e feiticeiro. Ao longo do conto, descreve como ascendeu socialmente a partir da resposta fraudulenta a uma oportunidade de emprego: ser professor de javanês. Acabou sendo empregado por um barão já idoso, primeiramente para lecionar a língua que não dominava, e posteriormente para traduzir um livro que supostamente possuiria poderes mágicos. Já nesse ponto é possível notar a ironia do autor: motivado a seguir com a mentira após notar a admiração das pessoas pelo seu suposto conhecimento, Castelo ignora qualquer senso ético e aceita o emprego, mantendo o embuste até o fim. Trata-se de uma alegoria aos vícios disseminados na sociedade brasileira, constantemente atacados por Lima Barreto. A partir do bom relacionamento com o Barão, Castelo segue obtendo oportunidades, chegando à diplomacia. Aqui, nota-se a cultura do favoritismo: como ressalta Sergio Buarque de Hollanda, o Brasil possui uma cultura de negócios pouco racionalizada e nada justa, em que a amizade e o relacionamento com pessoas influentes acaba sendo mais importante profissionalmente que a própria capacidade técnica, o que acaba confinando o poder ao mesmo grupo de pessoas.

O candidato pode ainda acrescentar o peso satírico do conto ao expor crítica e ironicamente a cultura do favor na sociedade brasileira. Castelo não apresenta sinais de remorso ao contar sua história a seu amigo.

O candidato deve argumentar de maneira clara e coesa, de acordo com a norma culta da língua portuguesa, dominando os mecanismos linguísticos necessários ou indispensáveis para a construção da argumentatividade do texto.

 

B) O candidato deve estabelecer uma comparação argumentada entre Castelo e Cazuza. O primeiro, um cônsul que atingiu status na sociedade após uma escalada social baseada em golpes e mentiras: mesmo sem falar javanês, lecionou e traduziu a língua, além de publicar colunas no jornal sobre literatura javanesa; sem nada saber de linguística, representou o Brasil em um Congresso da disciplina; ao final do conto, como que zombando dos próprios escrúpulos, afirma que, se quisesse, poderia ser bacteriologista. Castelo narra, ao longo do conto, diversos episódios em que era admirado, o que retrata o fato de que era visto como um vencedor pela sociedade, de alto cargo e respeitado. Já Cazuza é o retrato dos que são vistos como derrotados: jamais obteve oportunidades acadêmicas, profissionais ou literárias, fosse por não ter os contatos certos, fosse por sua aparência não impressionar. Ao final do conto, relata um inusitado caso de sua infância pobre, em um morro carioca: acidentalmente mata um pintinho, fato que chama de “assassinato” e que claramente marca um trauma de arrependimento. O contraste entre os dois personagens fica, então, explícito: enquanto Castelo não demonstra nenhum remorso de sua trajetória fraudulenta, Cazuza opta por escolhas morais de justiça e correção, como sustentar e pagar o casal de negros que vivia com ele (prática não comum na época). No contexto da problemática sociedade brasileira retratada por Lima Barreto, é Castelo quem alegoriza o vencedor, e Cazuza, o perdedor.

O candidato deve argumentar de maneira clara e coesa, de acordo com a norma culta da língua portuguesa, dominando os mecanismos linguísticos necessários ou indispensáveis para a construção da argumentatividade do texto.

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