(UFPR - 2015 - 1ª FASE)
O soneto “No fluxo e refluxo da maré encontra o poeta incentivo pra recordar seus males”, de Gregório de Matos, apresenta características marcantes do poeta e do período em que ele o escreveu:
Seis horas enche e outras tantas vaza
A maré pelas margens do Oceano,
E não larga a tarefa um ponto no ano,
Depois que o mar rodeia, o sol abrasa.
Desde a esfera primeira opaca, ou rasa
A Lua com impulso soberano
Engole o mar por um secreto cano,
E quando o mar vomita, o mundo arrasa.
Muda-se o tempo, e suas temperanças.
Até o céu se muda, a terra, os mares,
E tudo está sujeito a mil mudanças.
Só eu, que todo o fim de meus pesares
Eram de algum minguante as esperanças,
Nunca o minguante vi de meus azares.
De acordo com o poema, é correto afirmar:
A temática barroca do desconcerto do mundo está representada no poema, uma vez que as coisas do mundo estão em desarmonia entre si.
A transitoriedade das coisas terrenas está em oposição ao caráter imutável do sujeito, submetido a uma concepção fatalista do destino humano.
A concepção de um mundo às avessas está figurada no soneto através da clara oposição entre o mar que tudo move e a lua imutável.
A clareza empregada para exposição do tema reforça o ideal de simplicidade e bucolismo da poesia barroca, cujo lema fundamental era a aurea mediocritas.
A sintonia entre a natureza e o eu poético embasa as personificações de objetos inanimados aliadas às hipérboles que descrevem o sujeito.
Gabarito:
A transitoriedade das coisas terrenas está em oposição ao caráter imutável do sujeito, submetido a uma concepção fatalista do destino humano.
a) Alternativa incorreta. O desconcerto do mundo é um conceito do Classicismo, além de não estar presente no poema de Gregório de Matos, o qual descreve o mundo em pleno funcionamento, mesmo que de uma forma poética.
b) Alternativa correta. Gregório de Matos estabelece a imagem do movimento das marés, da duração de um dia, do movimento da Lua à noite e, ao fim do poema, diz que tudo está sujeito a mudanças, menos ele mesmo, que nunca viu seus azares minguarem.
c) Alternativa incorreta. O poema referencia a influência da Lua sobre as marés e as águas do oceano, não a coloca como estática ou mutável.
d) Alternativa incorreta. Essa descrição se refere ao Arcadismo, não ao Barroco; o poema do enunciado não segue tais moldes.
e) Alternativa incorreta. Não há hipérboles caracterizando o sujeito, que só aparece ao final do poema, apresentando justamente o contrário da sintonia: enquanto a natureza é tida como mutável, o sujeito se vê como algo estático no meio do mundo.