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Questão 69557

UFAM 2010
Português

(UFAM - 2010) 

Leia o soneto a seguir, de Augusto dos Anjos

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

A partir desse soneto, é correto afirmar:

I. Ao se definir como “filho do carbono e do amoníaco”, o eu lírico se declara apenas matéria.
II. O amoníaco contrapõe-se ao carbono, compondo a dualidade corpo e alma.
III. O texto apresenta o ciclo de vida e morte, composto por dor e sofrimento, tendo a morte como o inevitável iminente, porém reconfortante.

A

Apenas II e III estão corretas

B

Apenas I está correta.

C

Apenas III está correta.

D

Todas estão corretas.

E

Todas estão erradas.

Gabarito:

Apenas I está correta.



Resolução:

I. CORRETA, pois essa definição é algo muito forte do eu lírico no poema. O autor não se define como filho de "Fulano" nem de "Beltrana", porque falar nomes vai fazer com que a sua definição seja permeada pelas características únicas de seus pais, algo que o tornaria único também. No entanto, o eu lírico se coloca como um ser que é como todos os outros seres: matéria.

II. INCORRETA, não podemos dizer que o "carbono" é o oposto do "amoníaco", mas sim diferentes: um carbono é um elemento químico, enquanto o amoníaco é um composto químico (NH3). No entanto, nenhum anula o outro.

III. INCORRETA, pois não podemos dizer que se trata o ciclo da vida, uma vez que o autor diz que o verbo está apenas a "espreitar" o que ele faz. Isso significa que, diferente em Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que o defunto autor faz suas homenagens ao verme que já comeu sua carne, esse poeta só fala que o verme lhe espreita para terminar o ciclo futuramente. Além disso, não há nenhum traço de reconfortante nesses últimos versos do autor que permite dizer que o fim é iminente, porém reconfortante.

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