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Questão 56355

UERJ 2012
Redação

(UERJ 2012)

A palavra

Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito − como não imaginar que, sem querer, feri

alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma

reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.

Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso

[5]  ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um

pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.

Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra

foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque

senti no momento − e depois esqueci.

[10]  Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas

para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano;

que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para

lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um

pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.

[15]  Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica

de Beethoven − e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre

a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?

Alguma coisa que eu disse distraído − talvez palavras de algum poeta antigo − foi despertar

melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente,

[20]  num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração

do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

 

RUBEM BRAGA PROENÇA FILHO, Domício (org.). Pequena antologia do Braga. Rio de Janeiro: Record, 1997

                                            Às vezes, também (l. 4)
 
Ao estabelecer coesão entre os dois primeiros parágrafos, a palavra “também”, nesse contexto, expressa determinado sentido. Considerando esse sentido, “também” poderia ser substituído pela seguinte expressão:

A

desse modo

B

por outro lado

C

por conseguinte

D

em consequência

Gabarito:

por outro lado



Resolução:

A) (incorreta) desse modo: expressa ideia de conclusão. Não faz sentido, pois o autor não está concluindo a ideia, mas mostrando uma oposição.
B) (correta) por outro lado: indica outra perspectiva. O autor está fazendo uma oposição entre a hostilidade e o consolo.
C) (incorreta) por conseguinte: assim como "desse modo", tem sentido de conclusão.
D) (incorreta) em consequência: demonstra o efeito de algo. Não faz sentido, pois o autor está mostrando duas visões diferentes, e não dizendo que o consolo é decorrente da hostilidade.

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