(UEMG/2012)
LEIA, abaixo, o comentário que a filósofa Hannah Arendt fez sobre as ações do comandante do Reich, Adolf Karl Eichmann, acusado de crimes contra o povo judeu:
“Os feitos eram monstruosos, mas o executante (...) era ordinário, comum, e nem demoníaco nem monstruoso.”
Hannah Arendt, A vida do espírito.In: Eduardo Jardim de Moraes e Newton Bignotto, Hannah Arendt: diálogos, reflexões e memórias. Belo Horizonte: Editora UFMG, p.138.
Assinale a alternativa em que o fator cultural presente nas ações comentadas explica CORRETAMENTE o fenômeno histórico acima mencionado:
A execução de atos criminosos com requintes de crueldade, ordenada pelas autoridades, foi praticada por pessoas comuns, afetadas principalmente pela falta de alimento e de emprego.
A banalidade na execução de crimes contra a humanidade se deve à burocratização do genocídio, implementada pela cúpula nazista, para liberar as pessoas de preocupações com a moral comum e com as leis.
A participação da juventude hitlerista no processo de construção do nacionalismo reforçou o senso político de oposição aos regimes socialistas autoritários.
A experiência nazista é um exemplo de fortalecimento da sociedade pelo Estado, criador de símbolos e valores culturais, que reforçam os princípios autoritários de governo.
Gabarito:
A banalidade na execução de crimes contra a humanidade se deve à burocratização do genocídio, implementada pela cúpula nazista, para liberar as pessoas de preocupações com a moral comum e com as leis.
A questão trabalha a noção de banalidade do mal desenvolvida por Arendt, relacionada aos processos de burocratização dentro da sociedade.
Arendt escreveu uma série de artigos chamada Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, um ensaio filosófico sobre o processo de julgamento, ocorrido em 1961, do oficial nazista Adolf Eichmann, responsável pelo transporte de inúmeros judeus para campos de concentração. A filósofa articula, entre suas ideias, o que Weber chamou de “honra do funcionário público”: o fenômeno que caracteriza a repressão moral do indivíduo em função de protocolos burocráticos, em que a moral do funcionário público implica o cumprimento objetivo dos protocolos dos sistemas burocráticos, sem afetações subjetivas (tais como compaixão, remorso ou até respeito à vida, entre outros). É a disfunção que torna o funcionário zeloso em um sujeito instrumentalizado, incapaz de resistir às ordens que recebe (acrítico e obediente).
Marcados pela racionalidade legal, os sistemas burocráticos formalistas, em função de sua aplicabilidade rotineira e pontual, exigem do indivíduo o cumprimento acrítico de suas prescrições. Assim, é exposta a interseção entre ética e lei, onde o pensamento e o julgamento críticos são abafados e se engendra a normatização de muitas formas de violência. É este o caminho para a banalização do mal, quando este se manifesta ocupando o lugar daquilo que é cotidiano e ordinário.
A: A argumentação de Arendt aponta que atos criminosos marcados por intensa crueldade foram praticados por pessoas comuns que, afetadas pelo assujeitamento moral fruto de uma intensa burocratização, tornaram-se instrumentos de ação do poder, sem qualquer crítica, questionamento ou ponderação ética.
C: O texto não aponta para a participação da juventude no nazismo nem trata de oposição aos regimes socialistas autoritários.
D: O nazismo foi um exemplo de enfraquecimento da sociedade pelo Estado, uma vez que os símbolos e valores culturais criados reforçaram princípios de um governo autoritário e genocida.