(Uel 2016) Leia o texto a seguir.
Inevitavelmente, nós consideramos a sociedade um lugar de conspiração, que engole o irmão que muitas de nós temos razões de respeitar na vida privada, e impõe em seu lugar um macho monstruoso, de voz tonitruante, de pulso rude, que, de forma pueril, inscreve no chão signos em giz, místicas linhas de demarcação, entre as quais os seres humanos ficam fixados, rígidos, separados, artificiais. Lugares em que, ornado de ouro ou de púrpura, enfeitado de plumas como um selvagem, ele realiza seus ritos místicos e usufrui dos prazeres suspeitos do poder e da dominação, enquanto nós, “suas” mulheres, nos vemos fechadas na casa da família, sem que nos seja dado participar de nenhuma das numerosas sociedades de que se compõe a sociedade.
WOOLF, V. Trois Guinées. Paris: Éditions des Femmes, 1997. p.200. apud Bourdieu, P. A Dominação Masculina. 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. p.4.
Em sua obra, Virginia Woolf reflete sobre a condição social das mulheres. Tal condição foi historicamente abordada com base no pensamento binário, a exemplo da díade masculino-feminino, também presente na oposição entre ordem e caos, o que pode ser encontrado em diferentes culturas e no pensamento científico. O binarismo, no entanto, é uma forma de racionalização da vida social criticada por diferentes correntes teóricas.
Com base no texto e nos conhecimentos sobre as críticas ao pensamento binário aplicado às explicações das relações sociais de gênero, considere as afirmativas a seguir.
Assinale a alternativa correta.
Somente as afirmativas I e II são corretas.
Somente as afirmativas I e IV são corretas.
Somente as afirmativas III e IV são corretas.
Somente as afirmativas I, II e III são corretas.
Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.
Gabarito:
Somente as afirmativas I e IV são corretas.
CORRETAS:
I. O trecho da obra de Woolf é coerente com a abordagem segundo a qual homens e mulheres são socialmente posicionados em conformidade com a estrutura social vigente, que se impõe, ainda que não de modo absoluto, aos indivíduos.
IV. A crítica ao pensamento binário procurou demonstrar as conexões lógicas e empíricas entre o binarismo e a classificação hierárquica. O binarismo é uma forma de pensamento que oculta e justifica as estruturas de desigualdade entre os termos colocados em oposição. Nesse sentido, em relação à oposição binária entre masculino e feminino, o primeiro é colocado em posição de superioridade, sendo os atributos socialmente considerados femininos frequentemente classificados como inferiores.
INCORRETAS:
II. O trecho invoca imagens, como a inscrição “no chão com signos de giz, místicas linhas de demarcação”, que abrem a possibilidade de transposição das fronteiras e, com isso, também as possibilidades de variações entre as representações sociais e as práticas sociais.
III. Mesmo diante de evidências da universalização da dominação masculina, as formas de poder e dominação são variáveis entre as culturas, o que comprova a origem social, cultural e histórica do fenômeno e não pode levar à formulação de uma cultura universal.