(UECE 2020) Atente para o seguinte excerto:
"A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de outro modo se teria conservado enorme entre a casagrande e a senzala. O que a monocultura latifundiária e escravocrata realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em Senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada entre esses dois extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadrarona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de democratização social do Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo ilegítimos, havidos delas pelos Senhores brancos, subdividiu-se parte considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos."
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime patriarcal. 52ª ed. São Paulo: Global, 2013.
O sociólogo brasileiro Gilberto Freyre aponta, na citação acima, a criação de uma democracia racial na história da relação entre senhores e escravos no Brasil escravocrata. Assim, mesmo que se possa criticar tal concepção, a perspectiva teórico-sociológica de Freyre afirma que
a miscigenação na história do Brasil foi positiva, pois aproximou a Casa-Grande e a Senzala ou senhores e escravos.
a escravidão e o latifúndio da monocultura açucareira lançaram distâncias sociais insuperáveis entre senhores e escravos.
foram os homens negros, e não as mulheres negras, os principais responsáveis pela criação da democracia racial no Brasil.
os negros e os brancos em conjunto, no período colonial, constituíram uma vigorosa democracia social de governo da sociedade.
Gabarito:
a miscigenação na história do Brasil foi positiva, pois aproximou a Casa-Grande e a Senzala ou senhores e escravos.
a) Correta. Apesar de constatada como mito, a teoria da democracia racial consistia numa noção fantasiosa, idílica, que supunha uma “harmonia social” fruto da miscigenação, esta uma marca expressiva (e positiva) da cultura e constituição da sociedade brasileira, permitindo uma “boa convivência” entre diferentes etnias — de acordo com Freyre.
b) Incorreta. O enunciado se refere à perspectiva de Freyre sobre “democracia racial” e essa alternativa não traz a afirmação central da teoria dele.
c) Incorreta. No texto, o autor diz o contrário: “A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadrarona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de democratização social do Brasil.”
d) Incorreta. A ideia de Freyre não diz respeito exatamente à constituição de uma “vigorosa democracia social de governo da sociedade”, por parte de negros e brancos “em conjunto”, durante o período colonial. Na realidade, ele fundamenta sua noção de “democracia racial” na miscigenação de etnias que permite uma convivência “harmoniosa” no Brasil, e não num esforço consciente que culminou no estabelecimento de um governo vigoroso e democrático.