(UECE - 2019/2)
“De fato, a corrupção é nociva, e, se não diminuísse o bem, não seria nociva. Portanto, ou a corrupção nada prejudica – o que não é aceitável – ou todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem. Isto não admite dúvida. Se, porém, fossem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir. [...]. Logo, enquanto existem, são boas. Portanto, todas as coisas que existem são boas, e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois, se fosse substância, seria um bem”.
HIPONA, Agostinho de. Confissões. Coleção “Os Pensadores”. Livro VII, cap. XII, 1983. – Texto adaptado.
Sobre a questão do mal em Santo Agostinho, considere as seguintes afirmações:
I. O mal não existe sem o bem.
II. O mal diminui o bem, e vice-versa.
III. O mal absoluto pode existir.
É correto o que se afirma em
I e III apenas.
I e II apenas.
II e III apenas.
I, II e III.
Gabarito:
I e II apenas.
b) I e II apenas.
I. Correta. O mal não existe sem o bem.
Na perspectiva do filósofo, o mal só existe como privação ou ausência do bem, logo, o mal não é uma substância, mas uma corrupção na substância, como, por exemplo, a escuridão não é algo, mas ausência de luz. O mal, portanto, é caracterizado a partir de uma ausência do Bem, isto é, privação de Deus. Logo, o bem existe por si mesmo, mas o mal apenas está em relação ao bem.
II. Correta. O mal diminui o bem, e vice-versa.
O mal diminui o bem em relação a uma privação deste, e o bem diminui o mal na geração do bem. Ou seja, não é uma relação de duas substâncias, mas de uma única substância que pode sofrer privação.
III. Incorreta. O mal absoluto pode existir.
Essa é, na verdade, uma concepção que Agostinho criticava no maniqueísmo, uma seita filosófica a qual ele havia aderido antes de sua conversão ao cristianismo. O mal, enquanto princípio ontolológico absoluto, supõe a existência de uma substância má, que, para existir, ou é um princípio mal criado por Deus, sendo totalmente bom — contradição que o filósofo patrístico não pode aceitar — ou um princípio independente, em oposição ao Deus, como um princípio bom — noção igualmente rejeitada por ele, pois isso limitaria o poder e a unidade de Deus.