(UECE - 2015)
O amigo da casa
A própria menina se prende muito a 1ele, que ainda lhe trouxe a última boneca, embora agora ela se ponha mocinha: encolhe-se na poltrona da sala sob a luz do abajur e lê a revista de quadrinhos. 2Ele é alemão como o dono da casa. Tem apartamento no hotel da praia e joga tênis no clube, saltando com energia para dentro do campo, a raquete na mão. Assiste às partidas girando no copo de uísque os cubos de gelo. É o amigo da casa. Depois do jantar, passeia com a mãe da menina pelo caminho de pedra do jardim: as duas cabeças – a loira e a preta de cabelos aparados – vão e vêm, a dele já com entradas da calva. 3Ele chupa o cachimbo de fumo cheiroso, que o moço de bordo vai deixar no escritório.
O dono da casa é Seu Feldmann. 4Dirige o seu pequeno automóvel e é muito delicado. Cumprimenta sempre todos os vizinhos, até mesmo os mais canalhas como Seu Deca, fiscal da Alfândega.
Seu Feldmann cumprimenta. Bate com a cabeça. Compra marcos a bordo e no banco para a 5sua viagem regular à Alemanha. Viaja em companhia do comandante do cargueiro, em camarote especial. Então respira o ar marítimo no alto do convés, os braços muito brancos e descarnados, na camisa leve de mangas curtas.
A fortuna de origem é da mulher: as velhas casas no centro da cidade, os antigos armazéns, 6o sítio da serra, de onde ela desce aos domingos em companhia 7do 8outro, que é o amigo da casa, e da menina.
9Saem os dois à noite e 10ele para o seu próprio automóvel sob os coqueiros na praia. 11Decerto brigaram mais uma vez, porque ela volta para casa de olhos vermelhos, enrolando 12nos dedos o lencinho bordado. Recolhe-se a seu quarto (ela e seu Feldmann dormem em quartos separados). Trila o apito do guarda. 13Os faróis do automóvel na rua pincelam de luz as paredes, tiram reflexo do espelho. 14Ela permanece insone: o vidro de sua janela é um retângulo de luz na noite.
(Moreira Campos. In Obra Completa – contos II. 1969. p. 120-122. Originalmente publicado na obra O puxador de terço. Texto adaptado.)
Leia as afirmativas a seguir, que apresentam as duas personagens - "o amigo da casa" e "o dono da casa".
I. O enunciador faz um confronto tendencioso entre os dois, levando sutilmente o leitor a pensar na superioridade de um e, consequentemente, na inferioridade do outro.
II. Na caracterização dos dois, o enunciador trabalha basicamente com elementos concretos. Deixa ao leitor a tarefa de inferir, das ações e do comportamentos dessas personagens, o que se lhes vai no interior.
III. O narrador, ao apresentar as personagens, o faz de perspectiva de uma dessas personagens, mostrando-se imparcial, como todos os narradores que narram em terceira pessoa.
Está correto o que se diz apenas em
II e III.
I e III.
III.
I e II.
I, II e III.
Gabarito:
I e II.
[D]
I. VERDADEIRA. O narrador faz uma descrição que marca a diferença de percepção e valor entre o dono e o amigo. Esse contraste coloca o dono numa posição hierárquica superior, mas moral e afetiva inferior - o mesmo ocorre no sentido reverso;
II. VERDADEIRA. Os dados apresentados pelo narrador para descrever as personagens são de ordem mais concreta e objetiva: carro, cachimbo, hábitos, traços físicos, nacionalidade. A inferência sobre a essência psíquica destes é oriunda de pequenas "dicas" que o enredo permite entrever: a própria divisão dono x amigo, bem como a alusão às brigas x passeios revelam um caráter mais ou menos amigável que difere os dois homens;
III. FALSA. O narrador não apresenta as personagens do ponto de vista de uma delas, mas não deixa de ser parcial por isso. Ademais, é equivocado dizer que todos os narradores em terceira pessoa são imparciais, uma vez que a onisciência, a ironia e a crítica são comumente encontradas na voz desses narradores.