(ITA - 2022 - 1ª fase)
Assinale a alternativa que confirma a seguinte afirmação: a poética de Drummond matém uma relação ambígua com a memória, com traços de esperança, embora sem saudosismo ou idealização.
"Eta vida besta, meu Deus." ("Cidadezinha qualquer").
"Amanhecem de novo as antigas manhãs/ que não vivi jamais, pois jamais me sorriram." ("Campo de flores").
"Não canterei ameres que não tenho,/ e, quando tive, nunca celebrei." ("Nudez").
"E como ficou chato ser moderno./ Agora serei eterno." ("Eterno").
"Então nos punimos em nossa delícia./ O amor atinge raso, e fere tanto." ("Ciclo").
Gabarito:
"Amanhecem de novo as antigas manhãs/ que não vivi jamais, pois jamais me sorriram." ("Campo de flores").
A) INCORRETA: ao dizer “Eta vida besta, meu Deus”, não está sendo expressa uma relação ambígua com a memória, nem mesmo saudosismo ou idealização. O que está ocorrendo, na verdade, é uma descrição simples da vida (característica do modernismo), sem floreios e rebuscamento que eram feitos em movimentos literários anteriores (como arcadismo, classicismo, etc.)
B) CORRETA: quando o poeta diz “Amanhecem de novo as antigas manhãs / que não vivi jamais, pois jamais me sorriam”, no primeiro verso observamos a presença de um paradoxo: aquilo que é antigo está nascendo de novo (como se fosse uma renovação). Isso demonstra que verdadeiramente o poema estabelece uma relação ambígua entre aquilo que é memória (as “antigas manhãs”) e aquilo que é esperança (amanhecer “de novo”), mas uma esperança que não é totalmente explícita. Por isso que a alternativa B está correta.
C) INCORRETA: em “Não cantarei amores que não tenho,/ e, quando tive, nunca celebrei” vemos que o traço de esperança que é solicitado pelo enunciado não é destacado neste trecho, uma vez que o poeta deixa claro que ele “Não cantará (de forma alguma)” seus amores, como se indicasse que ele mesmo não acredita na possibilidade de que isso aconteça.
D) INCORRETA: por mais que os versos “E como ficou chato ser moderno. / Agora serei eterno” possam indicar que o poeta quer se desprender do fato de ser moderno, isso não ocorre. O que vemos, na verdade, é uma crítica que ele faz ao fato dos modernistas estarem se transformando no mesmo padrão que eles criticavam haver em movimentos literários anteriores. Isso não faz, no entanto, Drumond deixar de ser eterno, porque o processo de ser modernista é de sempre se renovar, algo que o poeta faz constantemente em suas obras. Logo, não há uma relação ambígua com a memória, mas sim com a situação recente do poeta.
E) INCORRETA: nos versos “Então nos punimos em nossa delícia. / O amor atinge raso, e fere tanto” vemos que, assim como na explicação da alternativa anterior, não há uma relação com a memória, porque todas as situações estão sendo postas no presente. Isso porque os verbos estão postos todos no presente do indicativo e, juntamente com a construção feita, não abre a possibilidade de pensar nos sentimentos a partir de uma ideia do passado, mas apenas como esses sentimentos afetam no presente.