(ITA - 2008 - 1ª FASE)
O poema abaixo é um dos mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade. É INCORRETO dizer que o poema
Cidadezinha qualquer
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
é herdeiro da vertente social do Modernismo de 30.
ironiza a idealização da vida rural, tão cantada pelos românticos do século XIX.
substitui a idealização romântica da vida rural por uma visão mais crítica.
se vale de vocabulário e sintaxe simples, de acordo com a proposta do Modernismo.
mostra na primeira estrofe um quadro romântico da natureza, que é desfeito nas estrofes seguintes.
Gabarito:
é herdeiro da vertente social do Modernismo de 30.
[A]
a) INCORRETA. Na proposta de 30, havia uma valorização da vida e das paisagens sertanejas, com forte engajamento político e representação da potência das camadas populares. Esse poema, de tom mais irônico, se aproxima mais do piadismo da 1ª geração (de 22), que da postura literária dos anos 30;
b) CORRETA. É evidente a ironia presente na última estrofe quando a vida no campo, antes idealizada, recebe o adjetivo "besta" para caracterizá-la. O adjetivo "qualquer", no título, demonstra também esse tratamento irônico;
c) CORRETA. Longe das idealizações grandiosas do século anterior, Drummond propõe uma visão mais íntima da paisagem, que traz ao campo poético suas coisas mais ínfimas, pequenas, baixas. Não há uma depreciação, mas, sim, um tratamento mais crítico e, no limite, "realista" do ambiente rural;
d) CORRETA. É evidente, no plano estético, a escolha por orações curtas e simples, e palavras de uso cotidiano. Esse tipo de registro faz parte da poética modernista que já estava no horizonte do poeta;
e) CORRETA. Na primeira estrofe, elementos como "mulheres" e "laranjeiras" remetem a duas musas românticas: a natureza nacional e as mulheres. Ao longo do poema, no entanto, o "pomar amor cantar" vai sendo substituindo pela lentidão da vida campestre, e pela "bisbilhotice" daquele lugar, que se resumem no verso final: "eta vida besta, meu deus" — que desconstrói a visão aprazível do início.