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Questão 29

ITA 2008
Português

(ITA - 2008 - 1ª FASE)

     1Com um pouco de exagero, costumo dizer que todo jogo é de azar. Falo assim referindo-me ao futebol que, ao contrário da roleta ou da loteria, implica tática e estratégia, sem falar no principal, que é o talento e a 3habilidade dos jogadores. Apesar disso, não consegue eliminar o azar, isto é, o acaso.
     4E já que falamos em acaso, vale lembrar que, em francês, “acaso” escreve-se “hasard”, como no 5célebre verso de Mallarmé, que diz: “um lance de dados jamais eliminará o acaso”. Ele está, no fundo, referindo-se ao fazer do poema que, em que pese a mestria e lucidez do poeta, está ainda assim sujeito ao azar, ou seja, ao acaso.
     8Se no poema é assim, imagina numa partida de futebol, que envolve 22 jogadores se movendo num 9campo de amplas dimensões. Se é verdade que eles jogam conforme esquemas de marcação e ataque, 10seguindo a orientação do técnico, deve-se no entanto levar em conta que cada jogador tem sua percepção da 11jogada e decide deslocar-se nesta ou naquela direção, ou manter-se parado, certo de que a bola chegará a 12seus pés. Nada disso se pode prever, daí resultando um alto índice de probabilidades, ou seja, de ocorrências 13imprevisíveis e que, portanto, escapam ao controle.
    14Tomemos, como exemplo, um lance que quase sempre implica perigo de gol: o tiro de canto. Não é à 15toa que, quando se cria essa situação, os jogadores da defesa se afligem em anular as possibilidades que têm os adversários de fazerem o gol. Sentem-se ao sabor do acaso, da imprevisibilidade. O time adversário desloca para a área do que sofre o tiro de canto seus jogadores mais altos e, por isso mesmo, treinados para cabecear para dentro do gol. Isto reduz o grau de imprevisibilidade por aumentar as possibilidades do time atacante de aproveitar em seu favor o tiro de canto e fazer o gol. Nessa mesma medida, crescem, para a 20defesa, as dificuldades de evitar o pior. Mas nada disso consegue eliminar o acaso, uma vez que o batedor do 21escanteio, por mais exímio que seja, não pode com precisão absoluta lançar a bola na cabeça de determinado 22jogador. Além do mais, a inquietação ali na área é grande, todos os jogadores se movimentam, uns tentando 23escapar à marcação, outros procurando marcá-los. Essa movimentação, multiplicada pelo número de 24jogadores que se movem, aumenta fantasticamente o grau de imprevisibilidade do que ocorrerá quando a bola 25for lançada. A que altura chegará ali? Qual jogador estará, naquele instante, em posição propícia para 26cabeceá-la, seja para dentro do gol, seja para longe dele? Não existe treinamento tático, posição privilegiada, 27nada que torne previsível o desfecho do tiro de canto. A bola pode cair ao alcance deste ou daquele jogador e, 28dependendo da sorte, será gol ou não.
     29Não quero dizer com isso que o resultado das partidas de futebol seja apenas fruto do acaso, mas a 30verdade é que, sem um pouco de sorte, neste campo, como em outros, não se vai muito longe; jogadores, 31técnicos e torcedores sabem disso, tanto que todos querem se livrar do chamado “pé frio”. Como não pretendo 32passar por supersticioso, evito aderir abertamente a essa tese, mas quando vejo, durante uma partida, meu 33time perder “gols feitos”, nasce-me o desagradável temor de que aquele não é um bom dia para nós e de que a derrota é certa.
      35Que eu, mero torcedor, pense assim, é compreensível, mas que dizer de técnicos de futebol que vivem de terço na mão e medalhas de santos sob a camisa e que, em face de cada lance decisivo, as puxam para fora, as beijam e murmuram orações? Isso para não falar nos que consultam pais-de-santo e pagam promessas a Iemanjá. É como se dissessem: treino os jogadores, traço o esquema de jogo, armo jogadas, 39mas, independentemente disso, existem forças imponderáveis que só obedecem aos santos e pais-de-santo; 40são as forças do acaso.
      41Mas não se pode descartar o fator psicológico que, como se sabe, atua sobre os jogadores de qualquer 42esporte; tanto isso é certo que, hoje, entre os preparadores das equipes há sempre um psicólogo. De fato, se 43o jogador não estiver psicologicamente preparado para vencer, não dará o melhor de si.
     44Exemplifico essa crença na psicologia com a história de um técnico inglês que, num jogo decisivo da 45Copa da Europa, teve um de seus jogadores machucado. Não era um craque, mas sua perda desfalcaria o time. O médico da equipe, depois de atender o jogador, disse ao técnico: “Ele já voltou a si do desmaio, mas 47não sabe quem é”. E o técnico: “Ótimo! Diga que ele é o Pelé e que volte para o campo imediatamente”.

(Ferreira Gullar. Jogos de azar. Em: Folha de S. Paulo, 24/06/2007.)

 

Índices em canto superior esquerdo de palavras indicam número da linha no texto original.

Qual dos advérbios terminados em -mente incide sobre o conteúdo de toda a frase?

A

fantasticamente (linha 24).

B

abertamente (linha 32).

C

independentemente (linha 39).

D

psicologicamente (linha 43).

E

imediatamente (linha 47).

Gabarito:

independentemente (linha 39).



Resolução:

[C]

Apenas o advérbio independentemente incide sobre o conteúdo de toda a frase. Observe: “É como se dissessem: treino os jogadores, traço o esquema de jogo, armo jogadas, mas, independentemente disso, existem forças imponderáveis que só obedecem aos santos e pais-de-santo; são as forças do acaso”, isto é, tudo o que foi citado antes é, de certa forma, desconsiderado por conta do uso de independentemente.

Seguem as justificativas das alternativas:

a) Alternativa incorreta, pois “fantasticamente” se relaciona apenas ao verbo “aumenta” na frase “(...) jogadores que se movem, aumenta fantasticamente o grau de imprevisibilidade do que ocorrerá quando a bola (...)”.

b) Alternativa incorreta, pois “fantasticamente” se relaciona apenas ao verbo “aderir” em “(...) evito aderir abertamente a essa tese, mas quando vejo, durante uma partida (...)”.

c) Alternativa correta.

d) Alternativa incorreta, pois “psicologicamente” se relaciona apenas ao adjetivo “preparado” em “(...) não estiver psicologicamente preparado para vencer, (...)”.

e) Alternativa incorreta, pois “imediatamente” se relaciona apenas ao verbo “volte” em “Diga que ele é o Pelé e que volte para o campo imediatamente”.

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