(FUVEST - 2023)
Leia o excerto e responda à questão:
Se os homens são estes seres da busca e se sua vocação ontológica é humanizar-se, podem, cedo ou tarde, perceber a contradição em que a “educação bancária” pretende mantê-los e engajar-se na luta por sua libertação. Um educador humanista, revolucionário, não há de esperar esta possibilidade. Sua ação, identificando-se, desde logo, com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos. Do pensar autêntico e não no sentido de doação, da entrega do saber. Sua ação deve estar infundida da profunda crença nos homens. Crença no seu poder criador. Isto tudo exige dele que seja um companheiro dos educandos, em suas relações com estes. A educação bancária, em cuja prática se dá a inconciliação educadoreducandos, rechaça este companheirismo. E é lógico que seja assim.
No momento em que o educador bancário vivesse a superação da contradição já não seria bancário. Já não faria depósitos. Já não tentaria domesticar. Já não prescreveria. Saber com os educandos, enquanto estes soubessem com ele, seria sua tarefa. Já não estaria a serviço da desumanização. A serviço da opressão, mas a serviço da libertação.
Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido, p. 86-87. Adaptado.
a) Explique o sentido da expressão “educação bancária”, levando em conta a transferência da palavra “bancária” do campo das finanças para o da educação.
b) Como a repetição de “já não” contribui para a construção do sentido do último parágrafo do texto?
Gabarito:
Resolução:
A) A educação bancária consiste em uma prática educativa em que o saber é transmitido ao aluno desconsiderando os saberes que ele já possui. Ao se utilizar a palavra “bancária” para caracterizar a educação, transfere-se, do campo das finanças, a ideia de uma educação em que se deposita o saber no aluno, como se deposita dinheiro em uma conta no banco. Isso pode ser visto no trecho do texto em que se defende um educador que “não faria depósitos”. Dessa aproximação entre os dois campos emerge ainda uma crítica ao sistema econômico reproduzido nas práticas educacionais.
B) As cinco repetições da expressão “já não” introduzem orações negando as ações de um educador que, já consciente, teria superado a visão de educação como prática transmissiva, de not modo a enfatizar essa superação, como se vê em “já não seria bancário”, “já não faria depósitos”, “já não tentaria domesticar”, “já não prescreveria”, “já não estaria a serviço da desumanização”. As repetições marcam fortemente a visão de um enunciador crítico a práticas educativas autoritárias em que se concentra o saber apenas na figura do professor.