(FUVEST - 2020 - 2ª fase)
Quarenta e seis anos depois, a vietnamita que comoveu o mundo quer que sua foto contribua para a paz
Só vi esse registro muito tempo depois. Passei 14 meses no hospital, tratando as queimaduras. Quando voltei para casa, meu pai me mostrou a foto, recortada de um jornal vietnamita: “Aqui está sua foto, Kim”. Olhei a foto e, meu Deus, como fiquei envergonhada! Como eu estava feia! E pelada! Todos estavam vestidos, e eu, uma menina, estava sem roupa. Vi a agonia e dor em meu rosto. Fiquei com raiva. Por que ele tirou aquela foto de mim? Era melhor não ter tirado nenhuma! Eu era só uma criança, mas tinha de lidar com muita dor. Quanto mais famosa a imagem ficava, mais eu precisava encarar minha tragédia.
Kim Phuc Phan Thi, em depoimento a Ruan de Sousa Gabriel, 19/09/2018. Disponível em https://epoca.globo.com/.
a) Justifique o emprego das sentenças exclamativas, explicitando o motivo do espanto de Kim.
b) A partir da expressão “minha tragédia”, que encerra o depoimento, analise os dois níveis de apreensão do evento trágico, considerando o momento do primeiro contato de Kim com o registro fotográfico e o momento do testemunho.
Gabarito:
Resolução:
a) O relato da vietnamita é fortemente marcado pela emoção, gerada pela memória do traumático evento da guerra através da fotografia. As sentenças exclamativas são a marca discursiva do espanto da criança diante da própria imagem, nua e desesperada, revelada em jornais da época.
b) A expressão “minha tragédia” revela níveis distintos de percepção do evento. A tragédia pode ser lida como a tragédia do momento em que a foto foi tirada e o choque de Kim com a visualização da própria imagem e, posteriormente, a ampla divulgação da mesma imagem, que atuou, para ela, como um constante lembrete do sofrimento da guerra. São as duas formas em que a tragédia, em tempos distintos, se manifestou para a senhora vietnamita.