REDAÇÃO
Leia os textos para fazer sua redação.
O progresso, longe de consistir em mudança, depende da capacidade de retenção. Quando a mudança é absoluta, não permanece coisa alguma a ser melhorada e nenhuma direção é estabelecida para um possível aperfeiçoamento; e quando a experiência não é retida, a infância é perpétua.
George Santayana, A vida da razão, 1905, Vol. I, Cap. XII. Adaptado
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O Historiador
Carlos Drummond de Andrade, A paixão medida, 1981. |
Flávio Cerqueira, Amnésia, 2015. |
Essa escultura de um |
A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína [o Museu Nacional depois do incêndio] como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio. Eu não construiria nada naquele lugar. E, sobretudo, não tentaria esconder, apagar esse evento, fingindo que nada aconteceu e tentando colocar ali um prédio moderno, um museu digital, um museu da Internet – não duvido nada que surjam com essa ideia. Gostaria que aquilo permanecesse em cinzas, em ruínas, apenas com a fachada de pé, para que todos vissem e se lembrassem. Um memorial.
Eduardo Viveiros de Castro, Público.pt, 04/09/2018.
Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo.
Walter Benjamin, Sobre o conceito de história,1940.
Considerando as ideias apresentadas nos textos e também outras informações que julgar pertinentes, redija uma dissertação em prosa, na qual você exponha seu ponto de vista sobre o tema: De que maneira o passado contribui para a compreensão do presente?
Gabarito:
Resolução:
O candidato deveria expor o próprio ponto de vista sobre a seguinte questão: “De que maneira o passado contribui para a compreensão do presente?” Foram oferecidos cinco textos que poderiam ser utilizados como base para reflexão.
No primeiro texto, de George Santayana, A vida da razão, questionava-se a capacidade de retenção de experiências e informações para maturidade do indivíduo e da sociedade.
O segundo texto, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, explora o papel do historiador que estuda as experiências humanas vividas ao longo do tempo.
No texto três, a escultura de Flávio Cerqueira, Amnésia, nos choca pela impressionante retratação do processo de embranquecimento do negro através do tempo.
O quarto texto de Eduardo Viveiros de Castro, relembra o incêndio do Museu Nacional, e o quinto texto de Walter Benjamin, Sobre o conceito de história, fala da apropriação da essência do momento histórico e que cintila até hoje.
A redação privilegiou o candidato que tinha conhecimentos mais aprofundados de história e sociologia, articulando tais conhecimentos com seu repertório sociocultural.
A partir da análise dos textos da coletânea, os vestibulandos poderiam seguir alguns caminhos que reafirmassem o conhecimento da história como ferramenta para compreender o presente e, com ele, ser capaz de refletir sobre os êxitos que poderiam ser repetidos e dos erros que poderiam ser evitados.
Para isso, o candidato deveria usar os conhecimentos advindos dos textos motivadores, desde que bem articulados e embasados, não configurando uma paráfrase, e de seu repertório sociocultural. O primeiro texto, assim como o segundo e o quinto, reforça a ideia de refletir sobre a importância da história e de como a apropriação dela pode ser munição para manejo das questões sociais. A escultura do menino negro pode suscitar questões relacionadas à problemática da escravidão e sobre como ela ainda repercute nos dias atuais, através da discriminação contra negros, que leva ao privilégio de brancos. Com isso, poderia-se articular a realidade racista de nossa sociedade com o conhecimento e reconhecimento do passado como uma ferramenta para a mudança dessas estruturas. O texto 5, sobre o incêndio do Museu Nacional, leva o candidato à reflexão sobre a negligência do Governo em divulgar e manter os registros históricos. Isso repercute na discussão sobre como a história influencia na formação de um sujeito crítico, o que nem sempre pode ser interesse dos governantes. A partir do que foi apresentado pela banca, o ideal seria que o candidato levantasse problemáticas relacionadas à escravidão e a formação do sujeito crítico guiadas pelo aprendizado dos fatos do passado.