(FUVEST - 2019 - 2ª fase)
Considere os seguintes trechos do romance A Relíquia.
I. E agora, para que cada um esteja prevenido e possa fazer as orações que mais lhe calharem, devo dizer o que é a relíquia... (...)
Esmagada, com um rouco gemido, a Titi aluiu* sobre o caixote, enlaçando-o nos braços trêmulos... Mas o Margaride coçava pensativamente o queixo austero, Justino sumira-se na profundidade dos seus colarinhos, e o ladino** Negrão escancarava para mim uma bocaça negra, de onde saía assombro e indignação!
*desabou; ** espertalhão.
II. (...) a Titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, colocou-o sobre o altar, devotamente desatou o nó do nastro* vermelho; depois, com o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo... Uma brancura de linho apareceu...
*fita
III. As relíquias eram valores! Tinham a qualidade onipotente de valores!
Eça de Queirós, A Relíquia.
a) As passagens acima são revelações de diferentes objetos, todos eles contemplados no romance como relíquias. Explicite a que objetos cada um dos trechos se refere.
b) No último parágrafo do romance, Teodorico reflete: “... houve um momento em que me faltou esse descarado heroísmo de afirmar, que, batendo na terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao céu – cria, através da universal ilusão, ciências e religiões”. Qual dos três excertos melhor se aplica à reflexão de Teodorico? Justifique
Gabarito:
Resolução:
Resolução:
a) Os objetos a que cada um dos trechos referem-se são:
Trecho I - A coroa de espinhos. Uma coroa feita por Teodorico a partir de partes de um arbusto espinhoso que encontrou durante sua viagem à Terra Santa.
Trecho II - A camisola de Mary. Um presente doado por uma das amantes de Teodorico, que foi entregue por engano à Titi, depois de uma troca de pacotes durante a viagem.
Trecho III - Um frasco de água do Rio Jordão, rio este considerado santo por ser o local onde João Batista batizou Jesus Cristo, segundo a religião católica. O frasco com água do Jordão, assim como outras “relíquias” eram vendidos nos locais turísticos na Terra Santa.
b) A reflexão de Teodorico pode ser relacionada ao trecho III, no qual as relíquias, consideradas assim por serem sagradas, são vendidas, comercializadas, ainda que sejam consideradas relíquias. O comércio desse tipo de objeto na região visitada por Teodorico aparece de forma comum na narrativa, demonstrando que o que as tornam relíquias é a convicção usada para afirmar o sagrado presente em cada objeto. Os objetos não são relíquias, realmente. Mas, são vendidas como tal justamente pela afirmação descarada que “cria universal ilusão”, assim como as ciências e as religiões, que são criadas a partir de convicções e afirmações feitas, tornando-as verdadeiras. Eça de Queirós constrói um diálogo entre a verdade e a ficção durante toda a narrativa, confirmada por sua célebre frase : “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”.