(FUVEST - 2018 - 2ª FASE)
Leia o texto e responda ao que se pede.
É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.
a) Pode-se afirmar que, neste excerto, além de resumir a existência de D. Plácida, o narrador expressa uma certa concepção de trabalho? Justifique.
b) De que maneira o ritmo textual, que caracteriza a possível resposta dos sacristãos, colabora para a caracterização de D. Plácida?
Gabarito:
Resolução:
a) Brás-Cubas, narrador do trecho que descreve a vida de D. Plácida, revela uma concepção do trabalho como fator de destituição da dignidade de uma pessoa. A exaustiva "faina" da personagem, mulher pobre e livre em uma sociedade estratificada e patriarcal, reduz sua existência ao desgaste e à insignificância - uma perspectiva marcante da personagem principal da obra machadiana, que orgulha-se de "não ter pago o pão com o suor do trabalho". A liberdade de D. Plácida não a dignifica e, em sua história, revela-se uma vida de sofirmento e invisibilidade condizente com a realidade social de trabalhadores brasileiros no fim do século XIX.
b) O recurso narrativo de uma extensa enumeração de atividades - expressas por orações reduzidas de infinitivo e gerúndio - revela aspectos de uma rotina dura, sem pausas e exaustiva que caracteriza a vida da personagem. Os irônicos sacristões sentenciam D. Plácida a uma vida sem liberdade e subalterna, refletida no tom e no ritmo desse parágrafo que a sintetiza.