(FUVEST - 2016 - 2ª fase)
Leia este texto.
É conhecida a raridade de diários íntimos na sociedade escravocrata do Brasil colonial e imperial, em comparação com a frequência com que surgem noutra sociedade do mesmo feitio, o velho Sul dos Estados Unidos. Gilberto Freire reparou na diferença, atribuindo-a ao catolicismo do brasileiro e ao protestantismo do americano: aquele podia recorrer ao confessionário, mas a este só restava o refúgio do papel. Esta é também a explicação que oferece Georges Gusdorf, na base de uma comparação mais ampla dos textos autobiográficos produzidos nos países da Reforma e da Contrarreforma. Ao passo que no catolicismo o exame de consciência está tutelado na confissão pela autoridade sacerdotal, no protestantismo, ele não está submetido a interposta pessoa.
Evaldo C. de Mello, “Diários e ‘livros de assentos’”. In: Luiz Felipe de Alencastro (org.), História da vida privada no Brasil - 2
a) De acordo com o texto, em que grupo de países os diários íntimos surgiam com maior frequência e por que isso ocorria?
b) A que expressões do texto se referem, respectivamente, os termos sublinhados no trecho “ele não está submetido a interposta pessoa”?
Gabarito:
Resolução:
a) O texto revela que, historicamente, os diários íntimos foram mais escritos e utilizados em países de orientação majoritariamente protestante, como é o caso do sul dos Estados Unidos. A justificativa fornecida pelo autor é a de que a mediação dos conflitos internos nos países "da Reforma" não era institucionalizada como no catolicismo, sendo o indivíduo estimulado a lidar mais solitariamente com suas angústias, dilemas e confissões - tipos de discurso recorrentes no gênero do diário.
b) O termo "ele" refere-se à expressão "exame de consciência" (atuando como pronome anafórico). Já a expressão "interposta pessoa" remete à "autoridade sacerdotal", mencionada no mesmo perídodo.