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Questão 71

FUVEST 2007
Português

(FUVEST - 2007 - 1a fase)

"Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa adorável paz do céu, realmente celestial, e dos campos, onde cada folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que caíramos, suspirar de puro alívio.
Depois, muito gravemente:
- Tu dizes que na Natureza não há pensamento...
- Outra vez! Olha que maçada! Eu...
- Mas é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o sofrimento! Nós, desgraçados, não podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie e se esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que aconselham estas colinas e estas árvores à nossa alma, que vela e se agita - que viva na paz de um sonho vago e nada apeteça, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o mundo rolar, não esperando dele senão um rumor de harmonia, que a embale e lhe favoreça o dormir dentro da mão de Deus. Hem, não te parece, Zé Fernandes?
- Talvez. Mas é necessário então viver num mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de certos Jacintos..."

Entre os seguintes fragmentos do excerto, aquele que, tomado isoladamente, mais se coaduna com as ideias expressas na poesia de Alberto Caeiro é o que está em

A

"toda essa adorável paz do céu, realmente celestial".

B

"cada folhinha conservava uma quietação contemplativa".

C

"na Natureza não há pensamento".

D

"dormir dentro da mão de Deus".

E

"é necessário então viver num mosteiro".

Gabarito:

"na Natureza não há pensamento".



Resolução:

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, era conhecido por "Guardador de Rebanhos", estabelecendo uma identificação com os elementos naturais. Outro aspecto relevante são suas posturas. Ele é anti-filosofia, anti-metafísica, culminando em uma escrita que recusa o pensamento e tem uma visão objetiva das coisas com as quais se relaciona. Dessa maneira, ao  tentar capturar um trecho de As cidades e as serras, de Eça de Queiroz, que imprima a essência de Caeiro, podemos entender como correta a alternativa [C] “na Natureza não há pensamento”. 

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