(FUVEST - 1989)
TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
17 DE JULHO
1 Um dia desta semana, farto de vendavais, naufrágios, boatos, mentiras, polêmicas, farto de ver como se descompõem os homens, acionistas e diretores, importadores e industriais, farto de mim, de ti, de todos, de um tumulto sem vida, de um silêncio sem quietação, peguei de uma página de anúncios, e disse comigo:
2 Eia, passemos em revista as procuras e ofertas, caixeiros desempregados, pianos, magnésias, sabonetes, oficiais de barbeiro, casas para alugar, amas-de-leite, cobradores, coqueluche, hipotecas, professores, tosses crônicas...
3 E o meu espírito, estendendo e juntando as mãos e os braços, como fazem os nadadores, que caem do alto, mergulhou por uma coluna a seguir. Quando voltou à tona trazia entre os dedos esta pérola:
4 "Uma viúva interessante, distinta, de boa família e independente de meios, deseja encontrar por esposo um homem de meia-idade, sério, instruído, e também com meios de vida, que esteja como ela cansado de viver só; resposta por carta ao escritório desta folha, com as iniciais M. R...., anunciando, a fim de ser procurada essa carta."
5 Gentil viúva, eu não sou o homem que procuras, mas desejava ver-te, ou, quando menos, possuir o teu retrato, porque tu não és qualquer pessoa, tu vales alguma cousa mais que o comum das mulheres. Ai de quem está só! dizem as sagradas letras; mas não foi a religião que te inspirou esse anúncio. Nem motivo teológico, nem metafísico. Positivo também não, porque o positivismo é infenso às segundas núpcias. Que foi então, senão a triste, longa e aborrecida experiência? Não queres amar; estás cansada de viver só.
6 E a cláusula de ser o esposo outro aborrecido, farto de solidão, mostra que tu não queres enganar, nem sacrificar ninguém. Ficam desde já excluídos os sonhadores, os que amem o mistério e procurem justamente esta ocasião de comprar um bilhete na loteria da vida. Que não pedes um diálogo de amor, é claro, desde que impões a cláusula da meia-idade, zona em que as paixões arrefecem, onde as flores vão perdendo a cor purpúrea e o viço eterno. Não há de ser um náufrago, à espera de uma tábua de salvação, pois que exiges que também possua. E há de ser instruído, para encher com as cousas do espírito as longas noites do coração, e contar (sem as mãos presas) a tomada de Constantinopla.
7 Viúva dos meus pecados, quem és tu que sabes tantos? O teu anúncio lembra a carta de certo capitão da guarda de Nero. Rico, interessante, aborrecido, como tu, escreveu um dia ao grave Sêneca, perguntando-lhe como se havia de curar do, tédio que sentia, e explicava-se por figura: "Não é a tempestade que me aflige, é o enjoo do mar. "Viúva minha, o que tu queres realmente, não é um marido, é um remédio contra o enjoo. Vês que a travessia ainda é longa, - porque a tua idade está entre trinta e dous e trinta e oito anos, - o mar é agitado, o navio joga muito; precisas de um preparado para matar esse mal cruel e indefinível. Não te contentas com o remédio de Sêneca, que era justamente a solidão, "a vida retirada, em que a alma acha todo o seu sossego". Tu já provaste esse preparado; não te fez nada. Tentas outro; mas queres menos um companheiro que uma companhia.
(Machado de Assis, A Semana, 1892.)
Assinale a alternativa em que o período proposto está corretamente pontuado.
Neste ponto viúva amiga, é natural que lhe perguntes, a propósito da Inglaterra como é que se explica, a vitória eleitoral de Gladstone.
Neste ponto, viúva amiga, é natural que lhe perguntes, a propósito da Inglaterra, como é que se explica a vitória eleitoral de Gladstone.
Neste ponto, viúva amiga é natural que, lhe perguntes a propósito da Inglaterra, como é que explica a vitória eleitoral, de Gladstone?
Neste ponto, viúva amiga, é natural, que lhe perguntes a propósito da Inglaterra, como é que, se explica a vitória eleitoral de Gladstone.
Neste ponto viúva amiga, é natural que lhe perguntes a propósito da Inglaterra como é, que se explica, a vitória eleitoral de Gladstone?
Gabarito:
Neste ponto, viúva amiga, é natural que lhe perguntes, a propósito da Inglaterra, como é que se explica a vitória eleitoral de Gladstone.
Analisando as informações do texto e a ideia que a sentença expressa, é perceptível que:
A) INCORRETA: pois "viúva amiga", interlocutora da qual o autor se refere, é um vocativo e, por esta razão e por estar aparecendo no meio da oração, deve ser colocado entre vírgulas. De forma semelhante, "a propósito da Inglaterra" está trazendo informações sobre o ato de perguntar anteriormente dito que não são dependentes do sentido do verbo, devendo aparecer separado entre vírgulas.
B) CORRETA: a sentença nessa alternativa foi construída corretamente, pois respeitou a separação entre vírgulas do vocativo "viúva amiga" e do termo acessório "a propósito da Inglaterra", mantendo as orações principais e subordinadas sem separações que prejudicassem seus sentidos como visto em outras alternativas.
C) INCORRETA: da mesma forma que na alternativa a, o vocativo "viúva amiga" não foi separado corretamente, faltando uma vírgula depois de 'amiga'. Além disso, não pode separar o "que" do restante da oração subordinada substantiva subjetiva, pois é um elemento integrante a ela. Também, o adjunto adnominal "de Gladstone" não pode ser separado do substantivo "eleitoral".
D) INCORRETA: pois não se pode separar com vírgulas o sujeito do seu verbo ou do seu objeto, como ocorre nessa sentença em "é natural, que...", tratando-se de uma incorreção gramatical. Além disso, "a propósito da Inglaterra" também não foi devidamente separada, pois falta uma vírgula antes, já que não se trata do objeto direto de "perguntar". Também não se pode separar a conjunção "que" da sua oração subordinada em "como é que, se explica", por se tratar de um termo integrante.
E) INCORRETA: uma vez que, assim como em alternativas anteriores, o vocativo "viúva amiga" não foi pontuado corretamente (faltou uma vírgula entre "ponto" e "viúva"). Ademais, "a propósito da Inglaterra" foi construído como se fossse um objeto direto de "perguntar", e não como o termo acessório que ele é, já que não foi separado por vírgulas. Além disso, "que se explica" não pode ser separado entre vírgulas, porque é uma parte da oração subordinada.