(EsPCEx - 2021)
Leia o poema de Charles Baudelaire a seguir.
Correspondências
A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam sair às vezes palavras confusas:
Por florestas de símbolos, lá o homem cruza
Observado por olhos ali familiares.
Tal longos ecos longe onde lá se confundem,
Dentro de tenebrosa e profunda unidade,
Imenso como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se transfundem.
Perfumes de frescor tal a carne de infantes,
Doces como o oboé, verdes igual ao prado,
- Mais outros, corrompidos, ricos, triunfantes,
Possuindo a expansão de um algo inacabado,
Tal como o âmbar, almiscar, benjoim e incenso,
Que cantamm o enlevar dos sentidos e o senso.
Das características do Simbolismo descritas abaixo, assinale a que mais está presente no poema
A expressão de campos sensorais por meio da sinestesia.
O conflito constante entre matéria e espírito.
A transcedência espiritual por meio da morte.
A expressão verbal carregada de aliterações.
A angústia e a sublimação sexual que visa ao sagrado.
Gabarito:
A expressão de campos sensorais por meio da sinestesia.
[A]
O poema de Baudelaire faz uso abundante de sinestesias, isto é, combinações entre os sentidos físicos (visão, olfato, tato…) para representar realidades sensoriais. Isso se torna mais evidente nos versos finais do poema:
“Os perfumes, as cores e os sons se transfundem.
Perfumes de frescor tal a carne de infantes,
Doces como o oboé, verdes igual ao prado,
– Mais outros, corrompidos, ricos, triunfantes,
Possuindo a expansão de algo inacabado,
Tal como o âmbar, almíscar, benjoim e incenso,
Que cantam o enlevar dos sentidos e o senso.”
Há uma mistura total entre “perfumes” (olfato), “cores” (visão) e “sons” (audição), que vai se desdobrando. O som do oboé é doce, e o perfume tem sabor (doce) e cor (verde), elementos como âmbar, almíscar, benjoim e incenso (ligados ao sabor e ao perfume) “cantam” a elevação dos sentidos. É uma característica muito marcante dos simbolistas, fortemente explorada pelo poeta francês.
Sobre as demais afirmativas:
b) INCORRETA. É possível identificar algo da dualidade matéria x espírito, mas esse não é o tom dominante no poema — a intenção do eu lírico é descrever sua percepção da natureza a partir de estados físicos e anímicos;
c) INCORRETA. O poema não trata da morte como forma de transcendência, e sim da percepção do mundo natural a partir de "correspondências" sensoriais e espirituais;
d) INCORRETA. Não há aliterações (repetição de sons consonantais) recorrentes no poema, ainda que isso marque a estética simbolista em outros poemas;
e) INCORRETA. Não há elementos suficientes para perceber uma "sublimação sexual" em busca do "sagrado". Esses elementos não são colocados em questão.