(AFA - 2016)
TEXTO II
FAVELÁRIO NACIONAL
Carlos Drummond de Andrade
Quem sou eu para te cantar, favela,
Que cantas em mim e para ninguém
a noite inteira de sexta-feira
e a noite inteira de sábado
E nos desconheces, como igualmente não te
conhecemos?
Sei apenas do teu mau cheiro:
Baixou em mim na viração,
direto, rápido, telegrama nasal
anunciando morte... melhor, tua vida.
...
Aqui só vive gente, bicho nenhum
tem essa coragem.
...
Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer,
Medo só de te sentir, encravada
Favela, erisipela, mal-do-monte
Na coxa flava do Rio de Janeiro.
Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver
nem de tua manha nem de teu olhar.
Medo de que sintas como sou culpado
e culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade.
Custa ser irmão,
custa abandonar nossos privilégios
e traçar a planta
da justa igualdade.
Somos desiguais
e queremos ser
sempre desiguais.
E queremos ser
bonzinhos benévolos
comedidamente
sociologicamente
mui bem comportados.
Mas, favela, ciao,
que este nosso papo
está ficando tão desagradável.
vês que perdi o tom e a empáfia do começo?
...
(ANDRADE, Carlos Drummond de, Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984)
Nos versos: “Mas, favela, ciao, / que este nosso papo / está ficando tão desagradável / vês que perdi o tom e a empáfia do começo?”, verifica-se a presença das funções de linguagem
apelativa e referencial.
poética e referencial.
metalinguística e apelativa.
fática e emotiva.
Gabarito:
fática e emotiva.
[D]
a) INCORRETA. O trecho não busca convencer seu interlocutor, ou levá-lo a adotar determinada postura (função apelativa); nem possui como interesse a exposição de informações objetivas, ligadas ao contexto da mensagem (função referencial);
b) INCORRETA. O trecho apresenta, sim, traços da função poética, ao trabalhar com figuras de linguagem e demonstrar preocupação estética. O que não existe é a função referencial (informativa), como explicado para [A];
c) INCORRETA, o último verso possui natureza metalinguística, pois retoma o próprio texto ("o tom e a empáfia" presentes no poema). Não há, no entanto, o caráter apelativo, como se justifica em [A] (a ausência da tentativa de persuasão);
d) CORRETA. A função fática se observa no verso "mas, favela, ciao", em que há um contato direto com o interlocutor no sentido de interromper o fluxo comunicativo, despedir-se, parar a fala. A linguagem emotiva, por sua vez, está na expressão de sentimentos individuais sobre a conversa e a favela ("nosso papo / está ficando tão desagradável").