(AFA - 2009)
Texto VI
Oração do rio São Francisco em tempos de poucos rios
[1] Onde houver a dúvida dos que fraquejam, que eu leve a fé [2] dos que constroem seu tempo. Na adversidade, meio ao [3] deserto e ao clima árido, a fé dos que colhem uvas e mangas [4] em minhas margens. Dos que colhem arroz em minhas várzeas, dos que criam peixes com minhas águas em açudes [6] feitos. A fé dos xocós lá em Poço Redondo. A fé que cria [7] cabras nos Escuriais. Dos que colhem cajus e criam gado em Barreiras e outros cafundós.
Onde houver o erro dos governantes que eu leve a verdade de Canudos. O bom senso dos conselheiros de encontro à insanidade dos totalitários. Os canhões abrindo fendas na cidade sitiada e a verdade expondo cada vez mais a ferida da loucura na caricatura da História. O confisco da poupança e o rombo na previdência. O fim da inflação e o pão escasso, o emprego rarefeito, a dignidade estuprada em cada lar de nordestinos.
Onde houver a tristeza dos solitários que eu leve a alegria das festas de São João. Solitário eu banho muitas terras e em todas, das Gerais, do Pernambuco, das Alagoas e do Sergipe, não há tristeza ao pé da fogueira, nas núpcias entre a concertina e o repente, entre a catira e o baião. Das festas do Divino ao Maior São João do Mundo, deixai-me levar, Senhor o sabor de minhas águas juninas e seus fogos de artifícios.
(http://adercego.blogsome.com/2006/12/04/oracao-do-rio sao-francisco-emtempos- de-poucos-rios - Acesso em 15/05/08 às 14h)
Assinale (V) verdadeiro e (F) falso, e, a seguir, assinale a correta em relação ao 1º fragmento do Texto VI.
( ) Os sintagmas “que constroem o seu tempo” (l. 2) e “que cria cabras” (l. 6 e 7) exercem a mesma função restritiva em relação ao vocábulo fé.
( ) No último período do fragmento, há um expediente de coesão, a elipse, que retoma um termo facilmente depreendido do contexto.
( ) Em “...a fé dos que colhem uvas e mangas em minhas margens” (l. 3 e 4) o vocábulo que tem como referente “os” e introduz uma oração com função adjetiva.
( ) Em “...a fé dos que constroem...” (l. 1 e 2) o vocábulo fé possui um sentido passivo e em “...a fé que cria cabras...”, (l. 6 e 7) um sentido ativo.
( ) Há, na linha 1, o uso da antítese que se repete em todos os outros períodos.
F – F – V – F – V
F – V – V – V – F
V – V – F – V – F
V – F – V – F – F
Gabarito:
F – V – V – V – F
( F ) Os sintagmas “que constroem o seu tempo” (l. 2) e “que cria cabras” (l. 6 e 7) exercem a mesma função restritiva em relação ao vocábulo fé.
Pois, mesmo que ambos os sintagmas tenham sentido restritivo, o referente é diferente. De fato, "que cria cabras" tem função restritiva ao vocábulo fé, mas "que constroem o seu tempo" tem função restritiva ao referente os, porque são eles que constroem o tempo.
( V ) No último período do fragmento, há um expediente de coesão, a elipse, que retoma um termo facilmente depreendido do contexto.
Podemos observar que em "Dos que colhem cajus e criam gado em Barreiras e outros cafundós" há uma elipse do termo a fé, ocultação essa feita para evitar repetição do mesmo termo no período.
( V ) Em “...a fé dos que colhem uvas e mangas em minhas margens” (l. 3 e 4) o vocábulo que tem como referente “os” e introduz uma oração com função adjetiva.
Sabemos que há essa ideia de adjetivo, sendo classificada como uma oração adjetiva restritiva, uma vez que toda a oração está qualificando que tipo de fé (substantivo) é essa.
( V ) Em “...a fé dos que constroem...” (l. 1 e 2) o vocábulo fé possui um sentido passivo e em “...a fé que cria cabras...”, (l. 6 e 7) um sentido ativo.
Podemos observar que há um sentido passivo no primeiro caso, porque o sujeito indeterminado é o agente dessa ação (os que constroem), e não a fé. Por outro lado, o sentido de fé no segundo caso é ativo, porque quem cria as cabras é a própria fé.
( F ) Há, na linha 1, o uso da antítese que se repete em todos os outros períodos.
Pois há de fato a antítese no primeiro período (até o primeiro ponto final), só que essa antítese não se repete para os períodos subsequentes.
Logo, a alternativa correta é a letra b.