(ENEM DIGITAL - 2020)
Caso pluvioso
A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.
A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.
E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.
E eu era todo barro, sem verdura...
maria, chuvosíssima criatura!
Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.
Era chuva fininha e chuva grossa,
Matinal e noturna, ativa... Nossa!
ANDRADE, C. D. Viola de bolso. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952 (fragmento).
Considerando-se a exploração das palavras “maria” e “chuvosíssima” no poema, conclui-se que tal recurso expressivo é um(a)
registro social típico de variedades regionais.
variante particular presente na oralidade.
inovação lexical singularizante da linguagem literária.
marca de informalidade característica do texto literário.
traço linguístico exclusivo da linguagem poética
Gabarito:
inovação lexical singularizante da linguagem literária.
A) INCORRETA: não é um registro social típico, uma vez que essas regiões não falam que "fulano chovia", mas sim que o dia chovia. Utilizar esse recurso de verbos que não possuem sujeito e colocar sujeitos neles é algo estritamente literário.
B) INCORRETA: o uso de "maria" e "chuvosíssima" não é um recurso oral, até porque não se vê isso nas tradições orais das pessoas, mas sim na escrita.
C) CORRETA: pois vemos que no texto o uso das palavras "maria" e "chuvosíssima" é um recurso da língua em que os poetas criam novas palavras (ideia representada por "inovação lexical") ou reutilizam as palavras já existentes com sentidos diferentes. Esse recurso é uma forma de fazer com que a linguagem literária seja única/singular. Ou seja, criar novas palavras é algo único na linguagem literária.
D) INCORRETA: uma vez que estes dois termos não configuram marcas de informalidade. Além disso, a informalidade não é um traço característico de todos os textos literários, por isso é complicado colocar essa alternativa como correta dada sua natureza extremamente generalizante.
E) INCORRETA: porque restringe o traço linguístico apontado pelo enunciado como uma característica exclusiva da linguagem poética. Por essa definição, entendemos que só pode se o usar nomes para descrever fenômenos da natureza (como "maria" para representar a "chuva") em poesias, impossibilitando em qualquer outro caso. No entanto, isso é inverídico. Como essas obras são romance, não podemos restringir esse recurso somente à linguagem poética.