(ENEM - 2020 - PROVA AMARELA)
Retrato do homem
A paisagem estrita
ao apuro do muro
feito vértebra a vértebra
e escuro.
A geração dos pelos
sobre a casca e os rostos
em seus diques de sombra
repostos.
Os poços com seu lodo
de ira e de tensão:
entre cimento e fronte
— um vão
As setas se atiram
às margens de ninguém,
ilesas a si mesmas
retêm.
Compassos de evasão
entre falange e rua
sondando a solitude
nua.
E na armadura de coisa
salobra, um só segredo:
a polpa toda é fruição
de medo.
ARAÚJO, L. C. Cantochão. Belo Horizonte: Imprensa Publicações — Governo do Estado de Minas Gerais, 1967.
No poema, a descrição lírica do objeto representado é orientada por um olhar que
desvela sentimentos de vazio e angústia sob a aparente austeridade.
expressa desilusão ante a possibilidade de superação do sofrimento.
contrapõe a fragilidade emocional ao uso desmedido da força física.
associa a incomunicabilidade emocional às determinações culturais.
privilegia imagens relacionadas à exposição do dinamismo urbano.
Gabarito:
desvela sentimentos de vazio e angústia sob a aparente austeridade.
A) CORRETA: No poema, o homem é descrito de modo a revelar aspectos internos de vazio e angústia, sentimentos este evocados por palavras e expressões como “apuro", “escuro”, “sombra”, “poços com seu lodo”, “vão”, “margens de ninguém” “evasão”, “solitude”, "coisa salobra” Tal sentimento interno é contraposto a uma aparência forte e austera, reivindicada por “muro”, “casca” e “armadura de coisa”. Comprova-se isso por meio de campo semântico formado, principalmente, nos dois últimos versos “a polpa toda é fruição/ de medo.”
B) INCORRETA: pois a palavra "desilusão" indica que há a perda de esperança, o que não acontece. No mesmo sentido, quando é dito que há a superação do sofrimento, vemos uma afirmativa inverídica, pois o que ocorre é apenas a exposição de uma realidade angustiante do eu lírico.
C) INCORRETA: pois não há em qualquer parte do poema que relate um uso desmedido da força por parte do eu lírico, a fim de contrapor sua fragilidade emocional. O eu lírico, na verdade, só faz um retrato da situação, como diz o próprio título.
D) INCORRETA: assim como o tópico anterior, o eu lírico não fala sobre cultura o texto e, muito menos, associa questão emocional à cultura de alguém, o que invalida a questão.
E) INCORRETA: as imagens do dinamismo urbano não são ressaltadas neste poema. Lendo a primeira estrofe se percebe muito mais uma paisagem fixa do que dinâmica, e é uma imagem que não fica claro se aborda dos centros urbanos ou do meio rural