(ENEM - 2020 - PROVA AMARELA)
Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se veem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma - usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.
BARRETO, L. Triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 26 jun. 2021.
Nessa petição da pitoresca personagem do romance de Lima Barreto, o uso da norma-padrão justifica-se pela
situação social de enunciação representada.
divergência teórica entre gramáticos e literatos.
pouca representatividade das línguas indígenas.
atitude irônica diante da língua dos colonizadores.
tentativa de solicitação do documento demandado.
Gabarito:
situação social de enunciação representada.
A) CORRETA: A norma-padrão utilizada pelo personagem de Barreto se deve à situação comunicativa, que, por seu caráter protocolar, e pelo destinatário (o Congresso Nacional) exige maior formalidade e uma linguagem que demonstre erudição.
B) INCORRETA: a divergência teórica entre gramáticos e literatos não determina o uso da norma padrão, porque mesmo se não houvesse a divergência a norma padrão seria utilizada para que Policarpo entrasse em contato com o Congresso Nacional.
C) INCORRETA: mesmo que as línguas indígenas tivessem mais representativa, Policarpo não poderia escrever nessa modalidade porque ela não é considerada a padrão no país e não é a língua adequada para se dirigir a órgãos oficiais do governo.
D) INCORRETA: há de fato uma atitude irônica de Policarpo em detrimento da língua dos colonizadores, mas esse não é o motivo que o fez utilizar a norma padrão da língua portuguesa. O seu uso é, na verdade, necessário para que ele dialogue com órgãos oficiais do governo.
E) INCORRETA: pois, além de o personagem não estar fazendo a solicitação de um documento (como está descrito no trecho que você mesmo colou, ele faz a solicitação de devolução de uma língua), a simples solicitação de algo não acarreta o uso de uma forma culta da língua.