(ENEM - 2020 - PROVA AMARELA)
A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um mais velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente — nunca ninguém nos avisou que aquele era mesmo o último Carnaval da Vitória. O Carnaval também chegava sempre de repente. Nós, as crianças, vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade. [...] O "dia da véspera do Carnaval", como dizia a avó Nhé, era dia de confusão com roupas e pinturas a serem preparadas, sonhadas e inventadas. Mas quando acontecia era um dia rápido, porque os dias mágicos passam depressa deixando marcas fundas na nossa memória, que alguns chamam também do coração.
ONDJAKI. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007.
As signficações afetivas engendradas no fragmento pressupõem o reconhecimento da
perspectiva infantil assumida pela voz narrativa.
suspensão da linearidade temporal da narração.
tentativa de materializar lembranças da infância.
incidência da memória sobre as imagens narradas.
alternância entre impressões subjetivas e relatos factuais.
Gabarito:
perspectiva infantil assumida pela voz narrativa.
A) CORRETA: No fragmento, o narrador assume a perspectiva infantil ao descrever as brincadeiras que vivia na época de criança, além de utlizar "nós, as crianças" em determinado momento do texto, evidenciando ainda mais essa perspectiva assumida por ele ao longo do texto.
B) INCORRETA: porque a questão deseja reconhecer a imagem que passa na mente do autor quando ele diz o que foi dito. No momento que o autor enumera as atividades que as crianças costumam fazer, ele não está pensando se a ordem das brincadeiras ou dos eventos é essa que foi posta, mas à medida que ele se lembra desses momentos, ele vai colocando no texto. Então não há um reconhecimento por parte do autor que a linearidade foi suspensa, porque para ele faz sentido contar os eventos naquela ordem.
C) INCORRETA: porque, através de uma interpretação do modo como o texto foi escrito, é possível perceber que o narrador se projeta enquanto criança, isto é, aplica uma visão infantil aos fatos do passado, e não tenta materializá-los no presente. Trata-se de uma percepção da intenção do autor através do jeito como os fatos foram narrados.
D) INCORRETA: já que não há uma narração das imagens em si, ou seja, o texto não está descrevendo algo em si, há a narração de um momento passado, mas não é uma cena, é uma narração da infância, onde há realmente a presença da memória, mas não como algo que está imbricado dentro de uma descrição de algo.
E) INCORRETA: uma vez que não há relatos factuais nesse trecho, ele é majoritariamente composto de impressões subjetivas, portanto não podemos identificar ou mesmo comprovar essa alternância mencionada pela última alternativa.