(ENEM - 2004)
Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
― Sois cristão?
― Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
― Sim pela graça de Deus
Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
(Oswald de Andrade)
Esse texto apresenta uma versão humorística da formação do Brasil, mostrando-a como uma junção de elementos diferentes. Considerando-se esse aspecto, é correto afirmar que a visão apresentada pelo texto é:
ambígua, pois tanto aponta o caráter desconjuntado da formação nacional, quanto parece sugerir que esse processo, apesar de tudo, acaba bem.
inovadora, pois mostra que as três raças formadoras – portugueses, negros e índios – pouco contribuíram para a formação da identidade brasileira.
moralizante, na medida em que aponta a precariedade da formação cristã do Brasil como causa da predominância de elementos primitivos e pagãos.
preconceituosa, pois critica tanto índios quanto negros, representando de modo positivo apenas o elemento europeu, vindo com as caravelas.
negativa, pois retrata a formação do Brasil como incoerente e defeituosa, resultando em anarquia e falta de seriedade.
Gabarito:
ambígua, pois tanto aponta o caráter desconjuntado da formação nacional, quanto parece sugerir que esse processo, apesar de tudo, acaba bem.
O texto mostra o hibridismo cultural brasileiro, formado pelos portugueses, índios e africanos. A partir dessa mistura, surgem elementos linguísticos que dificultam o diálogo e a compreensão. Essa incompreensão aparenta desordem, mas culmina na festa de Carnaval, que é reconhecida como um aspecto positivo. Devemos considerar também que se trata de um poema modernista escrito por Oswald de Andrade, autor caracterizado pela irreverência e ironia (velada ou não) em seus textos, que predominantemente trazem elementos sobre a formação nacional, traço bem característico do modernismo. Vamos à análise das alternativas:
a) Alternativa correta, uma vez que ao trazer menções aos indígenas e aos negros seguidas de versos "sem sentido", como "Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!" e "Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!" o autor está justamente apontando essa desconjunção, ou seja, essa diferença entre as matrizes dos povos. Além disso, isso fica bem evidente a partir da percepção de que há uma diferença religiosa entre os três povos, onde o português é cristão, o indígena não o é, e o negro, que acabou de sair da fornalha (fornalha um dos componentes dos engenhos de cana de açúcar, onde é feito o melaço, dada a forma como esta era projetada eram muito comuns as queimaduras na pele daqueles que a operavam), está provavelmente dizendo que é já que estava traumatizado.
b) Alternativa incorreta, já que o poema em momento algum fala sobre a "pouca contribuição" das três raças, pelo contrário, ele evidencia essa característica mestiça que tem o carnaval.
c) Alternativa incorreta, uma vez que a última coisa que Oswald de Andrade poderia querer em vida ou em morte é falar sobre a precariedade da formação cristã no Brasil, além disso, pensando de uma perspectiva história, a formação cristã no Brasil não foi nem um pouco precária, sendo que as religiões tradicionais foram quase 100% suprimidas, especialmente com a ajuda dos jesuítas.
d) Alternativa incorreta, já que Oswald de Andrade não busca criticar negros ou indígenas, que são retratados em pé de igualdade com os europeus.
e) Alternativa incorreta, uma vez que não há esses indícios de formação incoerente no Brasil, além disso, um dos maiores ímpetos do modernismo era justamente exaltar essa pluralidade que vinha do Brasil, resgatando suas origens reais.